Dostoievski é considerado pela crítica um
dos mais talentosos escritores russos de todos os tempos e suas obras figuram
constantemente nas listas dos melhores livros de todos os tempos, seja lá quem
ouse elaborar essas espécies de índex da magna literatura. Um autor de
desventuras, em cuja vida a literatura esteve sempre presente, que nos legou
obras admiráveis, traz como um traço marcante certo senso de perfeição, o que
faz com que os críticos nunca censurem um dos seus textos. Você sempre lerá
estudos, críticas e ensaios elogiosos à toda a obra do autor de Crime e Castigo, como se ele fosse
incapaz de escrever algo sem qualidade, o que é por si só impossível, mesmo
para o mais brilhante dos artistas, sempre haverá uma obra que destoa do
conjunto, que fica aquém do que o autor costuma cultivar em seus escritos.
Talvez seja este o caso de Uma história
desagradável (Editora 34, tradução de Priscila Marques), conto que Dostoievski
publicou pela primeira vez em uma revista literária que editava juntamente com
seu irmão em um período onde a escassez de críticos engajados nos deixou
carentes de qualquer opinião de seus contemporâneos sobre tal obra. ´
Nikíforov convida Chipulenko e Pralínski
para comemorarem seu aniversário, algo que ele nunca fez, o sujeito trata-se de
uma espécie reclusa e ensimesmada. Os três são altos funcionários do Estado,
traço distintivo que acentua certos aspectos da obra. Nikíforov recém-adquire
uma propriedade, está efusivo e deseja se confraternizar, faz isso por meio da
festividade natalícia. O quadro pintado aqui por Dostoievski é bem simples, comum,
trivial, dir-se-ia tão conciso quanto a estrutura do Ulysses de James Joyce. É assim que começa a narrativa, que segue
sempre no mesmo tom, introspectivo, simples, beirando o corriqueiro, mas com
todos os elementos que desfilam em outros textos do autor, sem, contudo,
algumas peculiaridades que marcaram suas obras mais aclamadas.
Na casa de Nikíforov, os três amigos
conversam sobre temas diversos, sobretudo o que Pralínski insiste em definir
como um humanismo necessário aos novos tempos. O personagem, protagonista da
narrativa, está embebido pelas recentes transformações sociais da Rússia, como
a recém abolida servidão. Esse sentimento de confraternização, de liberdade,
igualdade e fraternidade, um ideal iluminista visível, atinge Pralínski,
estimulando-o sobremaneira. Em meio à comemoração, Pralínski se embriaga e a
história desagradável começa de fato a se desnudar.
Dostoievski usa de sua linguagem
descontraída, que a tradutora salienta em uma breve nota anteposta ao conto, e
sua narrativa leve e sutil para nos conduzir até o inesperado dentro do conto.
Pralínski, devido a inusitada ausência de seu cocheiro e sua caleça a fim de
retornar ao lar, sai pelas ruas, remoendo a conversa que tivera com os amigos.
Assim, depara-se com uma festividade de casamento a se desenrolar e descobre
que o noivo é um subalterno seu. Instigado por si mesmo a confraternizar e
imprimir ao evento um ar de nobreza, de glória e dignidade, entra como penetra
na festa. Acima de tudo, os sentimentos de Pralínski são egoístas, o que ele
anseia antes de mais nada é que tenham uma visão beatífica, louvável de si
mesmo, o que o leva a fazer uma série de projeções auspiciosas a partir de seu
empreendimento, que não tarda a adjetivar como revolucionário em seus
princípios e intentos. Seu estado de embriaguez, o fato de pertencer a uma
classe social distinta dos noivos, suas intenções idealizadas, tudo isso
contribui para que situações desagradáveis se desenrolem, levando o leitor para
o desconhecido, para o improvável, para o incomum. No entanto, o texto não é
nem sisudo nem cômico, não é dramático e também não é instigante. É uma prosa
indecisa, que em vez de seguir em marcha, apenas anda trôpega, tentando se
sustentar em algo além de si mesma. A ausência, no entanto, de um recurso
literário exógeno que traga o que a tessitura do texto busca, faz-nos acreditar
que estamos seguindo a mesma trilha do bêbado Pralínski, que se perdeu em seu
intento inicial.
A presença ubíqua de elementos comuns nos
textos de Dostoievski, como personagens quase caricaturais que representam
ideias e conceitos, como vemos em Crime e
Castigo ou O Idiota, estão
presentes, assim como o ar de penúria contínua, o desastre da miséria, que
atinge seu auge em Gente Pobre, mas
que permeia a obra do escritor russo tão aclamado. Apesar disso, os elementos
parecem não se coadunar, o conto não é um lugar-comum, mas não consegue se
estabelecer como narrativa capaz de intrigar, de cativar ou de trazer um
desfecho emblemático, como em Crime e
Castigo ou mesmo Gente Pobre. Não
traz o humor que vemos de forma diáfana em outros trabalhos de Dostoievski,
como se o autor tivesse escrito esta obra apenas para preencher uma lacuna,
embora ela tenha sido apresentada como uma das mais cuidadosamente escritas
pelo autor.
Uma
história desagradável
é um conto inquietante, insípido e desprovido de atrativos quanto ao conteúdo,
o que não significa que sua forma e estética sejam inferiores. A estrutura da
narrativa é como em outros contos do autor, como A Dócil, não há exatamente elementos coesivos ausentes, não há uma
pobreza estilística, algo que é difícil presumir que fosse acontecer, mas sua
composição de elementos, seus ingredientes narrativos e ficcionais, a forma
como o enredo é tratado, a apresentação dessa peça incomum, se dá de forma
seca, despida de predicados agradáveis, instigantes. Talvez, nesse sentido, seu
título tenha sido demasiadamente adjetivo porque é exatamente nesses termos que
se pode definir o conto, não passa de uma história desagradável de Dostoievski
que o leitor sequer precisará fazer esforço para esquecer, assim como o
protagonista da narrativa tenta esquecer sua pequena desventura.

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