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Krypton grotesca ou uma síntese literária fajuta



A literatura é uma arte que se desdobra em inúmeras facetas e há formas atípicas de se escrever nos seus mais diversos gêneros. Contudo, alguns paradigmas, como em todo o campo da invenção humana, são inevitavelmente criados e seguidos anos adentro na história dessa forma de arte esplêndida. Escrever obras derivadas é uma forma de recriar mundos, de recontar histórias fantásticas, encantadoras, deslumbrantes e de cativar outra vez os leitores, oferecendo-lhes versões elegantes, delicadamente trabalhadas, algumas aprimoradas de tal forma que se tornam verdadeiras obras-primas. Outras vezes esse trabalho de síntese, de inspiração em obras pregressas, se torna uma verdadeira calamidade e nos deparamos com textos medíocres, que destoam tanto do contexto original, que não criam nada de inovador dentro daquele trabalho fundante, que nos deixam enfurecidos por terem maculado algo que em si era tão encantador e brilhante.
Quando nos propomos a ler livros como Os últimos dias de Krypton, de Kevin J. Anderson, (Casa da Palavra, tradução de Heitor Pitombo) é porque somos fãs incorrigíveis do universo sobre o qual o livro trata, isto é, do personagem dos quadrinhos da DC Comics, o Superman. Esse personagem deu origem a inúmeras histórias, tanto nas HQs quanto em outras mídias, chegando também ao universo dos livros, da literatura. Ao ler livros dessa natureza, já sabemos de antemão o que encontraremos, sabemos o final da história, o enredo traz elementos que são amplamente conhecidos e esperados, há uma gama de fatores que nos leva ainda assim a nos aventurarmos em ler tais obras, um dos motivos mais contundentes, talvez, seja o de que esperamos ler uma obra que seja tão talentosamente escrita que nos evidencie todos os elementos já conhecidos de forma inteiramente elegante, sofisticada, original e com uma estética narrativa cativante, como tantos outros livros que tanto apreciamos. Não espere isso da obra do autor de ficção científica estadunidense Kevin J. Anderson, o que ele fez, na verdade, foi macular a história da origem do Superman em sua obra tosca e ridiculamente longa.
A proposta do romance Os últimos dias de Krypton é deliciosa e atraente a qualquer leitor de HQs e livros de ficção científica ou que já conheça os personagens que estão presentes no conjunto da obra em torno do personagem Superman. O livro percorre os dias finas de Krypton, planeta de origem do Superman, e de sua família, pais biológicos e parentes próximos, bem como outros personagens de Krypton que posteriormente aparecerão na trajetória do Homem de Aço quando ele já estiver aqui na Terra, sendo um dos super-heróis mais poderosos do planeta. Contudo, esse trabalho de narrar a trajetória final da família biológica de Clark Kent, identidade civil do Superman, não é nada fácil, uma vez que já foram produzidas e criadas inúmeras versões dessa mesma história, sobretudo nas HQs, mídia de origem do personagem, que também já teve sua aparição na sétima arte em alguns filmes que cativaram o público, tornando o personagem ainda mais famoso. O trabalho do escritor escolhido para tal empreitada não seria fácil, seria um grandioso trabalho de síntese literária, congregar inúmeros elementos, alguns díspares, obviamente é sabido que haveria de ter estruturas conflitantes em tantas versões do mesmo épico, e outros que não se coadunam com a literatura, ou que não apresentam verossimilhança e que foram erros crassos dos roteiristas que trabalharam com o personagem ao longo dos anos. Um trabalho árduo, que exigiria criatividade, senso de proporção, originalidade e perspicácia. Tudo isso esperava-se que Kevin Anderson tivesse, por tratar-se de um escritor com mais de 80 livros publicados, mas não foi o que aconteceu.
Kevin J. Anderson é um escritor prolífico, nomeado a importantes prêmios da ficção científica dos EUA, ficção científica é o gênero é o que Anderson trabalha com afinco, produzindo textos que cativaram inúmeros leitores, algumas de suas obras se tornaram best-sellers e ele se tornou um autor consagrado, um autor digno de nota, apesar de concretamente não ter angariado nenhum dos prêmios em reconhecimento ao seu suposto brilhantismo. Em Os últimos dias de Krypton temos um vislumbre do trabalho de Anderson, caso não tenhamos tido contato com outras de suas obras. O estilo narrativo do autor é simplório, com construções descritivas triviais, encontramos um punhado diminuto de descrições originais, de figuras de estilo que não são lugar-comum na literatura do gênero, sua forma de tratar personagens, cenários e ação em cena é prosaica, aproxima-se de um trabalho iniciático, como se o autor fosse um mero roteirista de cinema redigindo uma comédia popularesca para que o estúdio não deixe de produzir mais uma obra comercial de nenhum valor estético. A apresentação dos cenários de Krypton é tão vulgar que toda a beleza exótica que o autor tenta evocar não nos impressiona, não nos desperta qualquer sentimento contemplativo e reverenciador, somos induzidos a não perceber os cenários incomuns de um planeta distante com uma civilização sofisticada e convidativa. 
Se as descrições de cenários e personagens não nos revelam os atores dessas peça deliciosa que seria a Krypton em seus dias finais, as cenas de ação, a própria ação, é uma parcimônia lexical que não se torna de fato uma sintaxe com o objetivo de sofisticar o texto, mas, sim uma inabilidade em lidar com os elementos narrativos, com a forma de compor o texto, é como se o autor não tivesse descoberto o tom do foco narrativo escolhido, aliás, a narração do tipo sumário no texto é desoladora, nos deixando enfadados com a insipiência do autor ao tentar construir um diálogo com o leitor e fazê-lo penetrar na narrativa. Tudo isso, contudo, poderia ser esquecido se no plano da síntese dos elementos comuns da história dos dias finai de Krypton o autor também não tivesse sido tão parvo. Os fatos são tão inverossímeis que os próprios personagens, em uma crise metanarrativa, tecem comentários pilhéricos sobre os implausíveis eventos. Se a tentativa foi de fazer uma autocensura, o resultado foi ainda mais vergonhoso. O autor teve tantos produtos para analisar das narrativas anteriores, dos trabalhos pregressos sobre o Superman e Krypton que não soube lidar criativamente com eles, criando um trabalho enciclopédico de forma tosca, onde as frações da narrativa se tornam incoesas, prejudicando o enredo, desconstruindo o panorama estético que seria possível criar com tais elementos.
Quando a proposta é de trazer para a literatura um personagem de HQ, o trabalho é instigante e a ideia, inovadora. O resultado de tais tentativas vai depender da aptidão do escritor, de sua proximidade com a história original, de seu talento como ficcionista, de sua técnica narrativa, tudo isso pode contribuir para que a história se torne ainda mais fascinante para os admiradores desses personagens ou pode fazer com que eles passem a odiar a literatura inspirada nas HQs, o que provavelmente é mais fácil acontecer em decorrência do que se tem publicado em torno de personagens da Marvel e da DC. Entretanto, Kevin J. Anderson com seu Os últimos dias de Krypton nos aponta para um caminho inteiramente novo. O autor de ficção científica aclamado nos EUA não traz em sua versão sobre o planeta de origem do Superman apenas uma narrativa de como ele desapareceu universo adentro, mas, também, o próprio autor, nos incita ao fim da esperança de boas obras da literatura inspiradas nas HQs. Os últimos dias de Krypton bem que poderia ser o último trabalho de Kevin Anderson como ficcionista incumbido de traduzir das HQs para a literatura a história de personagens que amamos.

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