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Letras Felinas [conto]



No anticlímax do inverno de 2017, o curador do espólio de Roberto Prado Delgaço escreveu para um jornalista do Correio do Vale do São Francisco para endereçar-lhe um envelope encontrado nos arquivos pessoais de Delgaço sobre uma figura que o colunista Álvaro Rebouças, do mesmo jornal, pesquisava com afinco durante toda a sua jovem carreira de jornalista. Rebouças era um jovem idealista, ainda não tinha encontrado sua natureza própria entre os obsoletos profissionais da notícia, embora tivesse inclinações genuínas e sonhos previsíveis, como todo redator tem em sua gênese.
Dália Herval foi uma escritora e jornalista que viveu entre Brasília e São Paulo a maior parte de sua vida. Seu talento para as letras manifestou desde cedo, ela sempre sonhou ser uma jornalista do Semanário Nacional, um dos principais jornais do país em sua época, extinto anos antes do processo de abertura política e jamais retomado com a redemocratização. Muitas pessoas sonhavam descobrir mais sobre a brilhante jornalista, taciturna diante de todos. Seus textos, por outro lado, eram de uma eloquência absoluta, ninguém encontrava outro adjetivo para definir o que ela redigia. Assinou apenas uma obra ficcional, o aclamado Nervuras da Terra e do Sol, novela experimental sobre a sociedade do entreguerras em um Brasil provinciano silenciado pelos grandes romancistas do século XX.
Entre os textos encontrados no espólio, endereçados a Rebouças, estava o seguinte datiloscrito:
A imagem de um livro aberto é a mesma de um universo que se desdobra em infinitas camadas de interpretação, um número infindável de visões de mundo que são compreendidas, submetidas a testes de decodificação, tentativas muitas vezes inúteis de entender um dado mundo para nós mesmos. Um livro aberto para mim era um mundo outro, desconhecido, mas tangível, eu queria penetrar em seus veios, em seus fortins, em seus labirintos, em seus atalhos e masmorras. Essa minha jornada pelo mundo dos livros, e do mundo dos livros ao mundo das letras, foi interminável, começou na minha aurora e se estendeu ao meu crepúsculo.
Aqui a pena, ou melhor, as teclas da máquina de escrever, se detém uma vez que preciso é tecer dois esclarecimentos fundamentais para a continuidade de minha pequena nota autobiográfica, que também poderia ser um ensaio pessoal que tenta perscrutar a própria arte da palavra, e a vida de uma artista da palavra. E o verbo se faz carne, e nós talvez sejamos a carne, não divina, não sagrada, mas profana, mundana, secular e trivial. Somos todos irrefutavelmente triviais em nossas mesquinharias cotidianas, o que transforma nossa vida e também o mundo em algo nobre são unicamente as palavras, que usadas pelo hábil artífice remodela a realidade lhe conferindo um fulgor, um brilho aurífero, diamantino.
Primeiro, Freud formulou sua análise terminável e interminável, pontificando, assim, que em alguns processos experimentais e analíticos podemos chegar ao fim, em outros, feliz ou infelizmente, não se pode aventar tal possibilidade, ficamos no reino do inconcluso, numa zona de revisão ininterrupta, em termos linguísticos, eu acrescentaria como glosa ao seu postulado. Minha imersão no mundo das letras se configura dentro desse enquadramento freudiano, eu jamais atingi o seu desenlace, seria impossível tal feito, por um conjunto de motivos que também aqui se desemboca, outra vez, nesse mesmo axioma, há um interminável caminho nas letras. Ou seriam caminhos que se bifurcam interminavelmente?
Segundo, minha incursão se desdobra da minha aurora ao meu crepúsculo, o que parece uma assertiva que torna meu texto incoerente. Se o escrevi, tal fato se deu ao longo de minha trajetória humana, esse não é um trabalho póstumo como o livro de Brás Cubas, feito incompatível com a realidade humana observável há séculos, milênios, a não ser nas páginas da ficção. Uma explicação para isso seria a de que, como Moisés, teria sido capaz de antever minha morte e desde já deixar registrado o que até lá se tornará real, por fora, talvez nunca real por dentro, em um espaço-tempo em que as ações sejam mais polissêmicas. Seguindo por essa senda, ainda teríamos que admitir que o conhecimento teológico é algo concreto, observável, o que lhe conferiria um certo rigor científico, se é observável talvez possa estar sujeito à experimentação, validação e demonstração matemática. Eis que nos deparamos então com um paradoxo, um conjunto de especulações que destoam entre si. Cabe dizer que minha assertiva não segue nenhum desses meandros, trata-se unicamente de uma intuição, não tenho ciência do meu desfecho, mas posso intui-lo, ainda que de forma vulgar.
No início de minha odisseia terrena, eu, uma jovem cuja formação tinha sido parcialmente negligenciada pelas instituições que frequentei, tinha duas paixões intensas: a) os livros; b) os gatos. Os livros me conduziam para dentro de mim, me permitiam explorar meu reflexo no espelho, aquela imagem que parecia não dizer nada sobre quem eu sentia, quem idealizava, quem previa. Eram nos textos, na ficção e na não ficção, que encontrava os adjetivos e os predicados para esboçar uma descrição de mim mesma, às vezes essas tentativas de decodificação se evidenciavam uma lide de Sísifo, eu me apercebia sempre tendo de reiniciar todo o processo, às vezes diante de Lacan e Freud, em outros casos diante de Gonçalves Dias, Machado de Assis e Émile Zola. Em alguns livros, eu entrevia meu eu que era só semântica em prefixos incoesos com o resto de mim, eu era um doce enigma que nenhum estudioso conseguia se afastar embora acreditasse no insucesso ao tentar perscrutá-lo.
Os gatos me introduziam num universo metafísico, eu vagava em sua natureza simbólica, eram para mim sempre um signo, que eu poderia explorar seus limites de inserção em tantos contextos formais e informais, atribuindo sentido, extraindo sentido, reinventando sentido, amalgamados à mentalidade teológica, em busca de um elo perdido entre ciência, senso comum, filosofia e religião. Os felinos me faziam entender o mundo fora de mim que tencionava a todo instante confabular com o mundo das letras que valsam dentro de mim, sob uma sinfonia arcaica, distorcida e indolente. Eu me detinha em seu comportamento, em sua revelia silenciosa, em sua modorra indiferente a qualquer influência, eu tentava captar aquilo que em sua própria existência poderia ser percebido de forma conotativa.
Minha decisão foi de reverter meu distanciamento da arte e da ciência por meio de uma travessia brutal. Ingressar no curso de Letras Vernáculas da Universidade de São Paulo para depois estudar jornalismo, embora eu tivesse em mente acima de tudo o jornalismo. Meu anseio mais ferrenho era a comunicação social, uma chama me conduzia a essa dimensão da notícia, eu acima de tudo queria permanecer entre a palavra e sua capacidade de informar e a sua outra parte, confundir por meio da ficção. Como um pêndulo, tinha intenção de oscilar, talvez porque parte de mim era possuída por uma heresia sistêmica quando pensava no texto, o texto que está em publicações seriais e não seriais, duas faces da mesma dracma, assim eu pesava, é preciso acesso ao anverso e reverso, porque nós mesmos assim o somos, essa bela e assombrosa antítese que se contradiz e coaduna paradoxalmente até não ser possível obter qualquer assertiva plausível.
Enquanto estudava jornalismo, depois de ter explorado o mundo das palavras, depois de ter me embriagado de literatura e linguística, findei por permitir que meu coração conhecesse a paixão mais sorrateira e infernal de todas, a paixão erótica, um espécime que tentava parecer para mim como um herói mítico, numa tentativa risível de oferecer proteção e luxúria, talvez porque pensasse que era o que toda mulher assim esperava de sua contraparte. Eu, por não temer a dor e não hesitar em uma entrega irrestrita, ousei acreditar, ou afirmei para mim mesma tê-lo feito, em suas investidas para fazer parte de minha biografia tão fluida e intricada. Nos deleitamos e nos acreditamos, nos tornamos um sintagma, para depois nos tornarmos antônimos. Tudo percorre um curso que sempre leva uma coda, as pessoas acham que as linhas são preenchidas até as reticências, ou que há palavra para não dizer que tudo chegou ao seu término, trata-se de um solecismo tacanho. Lá estávamos nós, dentro da mesma nau, esperando que o outro caísse nas águas do esquecimento e fosse levado até as profundezas da ausência irrevogável.
Nessa valsa com livro e homens, gatos e todos os vocabulários possíveis para dizer que se ama e se odeia, para exprimir terror e torpor, entre um verbo agressivo e um adjetivo malicioso, eu pervaguei alguns laços afetivos com amigos cuja intensidade e natureza do elo que entre nós se fincou não poderiam ser vividamente categorizados, substantivados ou adjetivados. Eles foram o que em mim faltava, reacenderam o que um dia ameaçou se extinguir, embora os gatos sempre estivessem presentes, tentando manter a mesma chama sempre ardendo, dentro de mim ocuparam um espaço que nenhum complemento inteiraria o sentido, foram relações de justaposição e aglutinação que fizeram de mim alguém que não se pode enxergar per se, eu era uma vastidão, um coletivo abstrato e impessoal, e era ao mesmo tempo o anverso de tudo isso, era apenas humana, num numeral inconcebível, inacessível e vago, tão vago que chega a se confundir com o que há em volta, com que que preenche o resto do cenário visível.
O meu fim não foi sorridente tampouco amargo, eu estava ali, em algum lugar entre o pretérito mais que perfeito e o presente do indicativo, fazendo uma escolha que demorei a aceitar, mas que era premente, eu deveria viver como se fosse desprovida de advérbios e adjetivos, e ao mesmo tempo eles eram imprescindíveis. O meu único trabalho nas belas-letras era para mim um facho de luz que não aquecia, era uma espécie de paráfrase de tantas outras obas que cultuava, como se me propusesse a plagiar o estilo e a forma de meus autores preferidos, em uma tentativa desesperada de me afirmar como escritora, digna de ser inclusa no cânone literário de meu país, nem isso me foi dado concretizar, talvez por imperícia, ou talvez por frouxidão de meu intento. Nos meus últimos dias, estive num chalé em um dos montes do lugar onde vivi a infância e adolescência, os arrabaldes de uma cidadezinha qualquer, dedicando-se ao exercício monótono da tradução de obras de Émile Zola para o português. Felinos ocupavam cada reentrância do meu habitat, evocando em mim o paganismo da deusa Bastet, tomando uma xícara de café antes de me debruçar sobre as obras em francês, inebriada por um silêncio severo, reconfortante e apático.
Rebouças concluiu que Dália Herval era uma mulher solitária e antediluviana, prisioneira de sua própria inquietude tácita, que nem ela mesma era capaz de afastar ou traduzir. A tradução no fim de sua vida foi uma tentativa de encontrar palavras para dizer a si mesma o que precisava atinar, saber fora de si. Ela esperava que o mundo terminasse numa hecatombe de sentidos que, paradoxalmente, nos tornaria inconciliáveis, incompreendidos um pelo outro, embora esse oximoro não representasse nossa ruptura de nossa identidade ontológica, seria, por outro lado, um ato de síntese.



Para Daniela Nunes, agosto de 2019.





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