Não é raro experimentalismo na literatura,
algo que traz um elemento novo para os gêneros friccionais, que subverte algum
paradigma, que agrega alguma idiossincrasia aos subgêneros que são
diuturnamente explorados por inúmeros autores, que tiveram uma notável evolução
ao longo da história. Acontece, também, de alguns autores se arriscarem em
estruturas e experimentos que deram certo, mas que foram parcamente adotados
como modelo de escrita, seja por inaptidão, seja por temor de não ser exitoso
quanto ao resultado, a arte-final pode não ser exatamente o que o autor
vislumbrou no início do processo. Muitos autores embrenham-se por caminhos
dantes seguidos, escrevendo em um estilo, paradigma ou proposta em que obteve
sucesso, em que outros autores também foram bem-sucedidos. Mas, em alguns
casos, seguir um caminho que o levou ao sucesso pode não ser exatamente uma
senda segura, algo pode vir a se desencaminhar. Nem sempre seguimos duas vezes
de forma proveitosa pelo mesmo atalho, às vezes a segunda tentativa pode ser
frustrante, pode ser desoladora. Na literatura, muitos autores tentam
reaproveitar, reciclar, em uma metáfora sustentável, um trabalho que foi
promissor e o produto final é um lixo que não serve nem para ser reaproveitado.
Milan Kundera é um autor que conquistou o público
e a crítica ao longo dos anos com obras que dialogam com os tempos modernos
tanto na forma quanto no conteúdo e nas entrelinhas dos debates filosóficos e
sociológicos. O autor nasceu na República Tcheca em 1929, mas emigrou para a
França em 1975 e tornou-se cidadão francês. Sua obra de maior sucesso é A insustentável leveza do ser, que
também foi adaptada para o cinema, sendo aclamada pelo público e pela crítica,
o que não cativou muito a atenção do romancista, que não autorizou mais nenhuma
adaptação de seus trabalhos para o cinema. Os livros de Kundera trazem um traço
marcante de sua ficção, seu experimentalismo no campo do conúbio da narrativa
ficcional com a ensaística. Em suas obras, os leitores se deparam com
personagens em cenários, com ação dosada, compondo uma ação comum ao estilo
narrativo, ao lado de dissertações filosóficas, suas originais e algumas vezes
inquietantes especulações metafísicas, inspiradas talvez em obras marcantes da
literatura universal.
Em sua primeira narrativa escrita em
francês, Milan Kundera se propõe a discutir a lentidão, o vagar em oposição ao
agitado, ao apressado. Seria uma obra em que fossem desencavadas as
idiossincrasias da pressa, as armadilhas da inquietação frenética que permeia a
sociedade contemporânea. A Lentidão
(Companhia de Bolso, tradução de Maria Luiza Silveira e Teresa Bulhões Fonseca)
é um romance que segue a estrutura das demais obras de Kundera quanto à forma,
isto é, ao trabalho de concatenação entre ficção narrativa e especulação
metafísica, uma tentativa de conciliação entre gênero narrativo e ensaístico,
como tantos outros autores de ficção fizeram ao longo da história e como o
próprio autor fez em outros trabalhos. Todavia, nesse contexto de estudo da
lentidão, de suas consequências para o homem dos dias hodiernos, da agitação e
da pressa e seu impacto sobre a civilização na qual estamos miseravelmente
aprisionados, Kundera findou por se perder em sua mescla, não nos conduzindo a
nenhum dos dois trabalhos de forma interdependente. Não há ficção capaz de se
firmar, e também não há uma sólida manifestação do gênero ensaístico.
Trata-se naturalmente de uma técnica
simples, ou seria simplória, partindo do pressuposto de que estamos lidando com
um ficcionista e ensaístas talentoso, que obteve sucesso em outros trabalhos.
Entremear narração e dissertação, duas tipologias textuais básicas. Teríamos
ficção a se desenrolar página após página com intercaladas especulações metafísicas,
mas quando lemos A Lentidão, tentamos
encontrar esses dois elementos a compor um par simétrico, a compor uma dupla
dinâmica, e acabamos por notar que eles estão submersos em si mesmos, em suas
respectivas propostas. Não há ficção em si mesma que nos atire ao texto e também
não há especulação consistente que nos distancie dele para valsarmos no campo
da reflexão, da ruminação que Kundera nos permite, por exemplo, em A vida está em outro lugar.
A Lentidão é um mosaico
singelo de personagens cativantes, apesar de tudo, de sua derrocada enquanto
obra integradora de dois elementos tipológicos textuais, de dois gêneros de
composição escrita. Logo no início da trama, que não se configura uma trama na
acepção clássica e imanente do termo, temos o autor e sua esposa se hospedando
em um castelo, o cenário aqui vai se tornar, posteriormente, um ponto de
culminação entre os diversos personagens dispersos pela obra. A narrativa traz
em seguida personagens de uma novela do século XVIII, fazendo uma inserção
deles no contexto da especulação metafísica, isto é, entre os personagens da
novela, o autor e sua esposa no castelo, e a dissertação filosófica, o texto
ensaístico dentro do romance, há um visível paralelo, uma notável vinculação.
No entanto, a obra não se dilata nem como romance, novela, conto, nem se
significa seguindo o campo do gênero ensaístico. Notadamente, ela seria uma
síntese, uma transposição de um gênero para outro, uma ligação entre as duas
possiblidades textuais, mas são insustentáveis isoladamente, o que não podemos
esperar que sejam sustentáveis de forma interdependente. O que Kundera
conseguiu com essa obra foi uma insustentável interpolação entre ficção e
especulação metafísica.
O que seria a narrativa é um mosaico de
personagens instigantes, que se alternam no palco, em cenários simples,
corriqueiros até, com exceção talvez do evento de entomólogos, onde surge mais
um personagem que seria deliciosamente explorado em uma trama psicológica mais
consistente, prolífica, atrevida, ainda assim se amalgamando vertiginosamente
com o contexto genérico da obra. No entanto, esses personagens são planos em
demasia, sem profundidade dentro dos cenários em que se deslocam, são opacos e
esquecidos em segundos quando tentamos nos adentrar em sua personalidade,
subitamente eles já não estão mais lá, são fugidios porque foram
incipientemente compostos pelo autor. Abandonemos, então, a ficção e nos
encaminhemos para especulação metafísica, eis que ela é incisiva, vigorosa, mas
sempre inconclusa, sempre se dissipa antes que possamos nos enraizar em suas
digressões, e as digressões não findam por acontecer, somos levados de volta
para ficção insossa, que também não nos traz uma progressão narrativa que
aponte para um desfecho, ainda que seja um desfecho ambíguo,
plurissignificativo.
A lentidão de Kundera é uma
obra irresoluta que mesmo que lida em um único fôlego não fará sentido, ela
carece de sentido ficcional e ensaístico, disso o leitor não poderá escapar, se
perderá na lentidão da obra, agitado pela insegurança de Kundera na hora de compor
mais esse trabalho que seria uma ode aos temas tão pertinentes que sempre
discorre em seus textos. O livro, em suma, é apenas uma atividade
despretensiosa, que nos leva a passar o tempo, apreciando os elementos
constituintes sem qualquer apego a formas fixas, a um todo coeso e coerente. É
uma obra para descontrair, para nos impor a lentidão da leitura, que alterna em
ritmo como recursos argumentativo por exemplificação, nos fazendo imergir no
texto em busca de uma trama, de uma ficção peculiar ao autor, e, ao mesmo
tempo, em busca de uma especulação metafísica brilhante, como encontramos em
outros livros do próprio Kundera. Mas, em meio à lentidão, em contraponto ao
caos frenético, Kundera nos trai. A sua forma expressiva foi tão lenta que ele
não teve presteza para incorrer em acerto na integração dos elementos de
composição do texto, ele retardou tanto o movimento para alcançar um tom adequado
em sua obra que findou por esquecer o que tinha que fazer.
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