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A mágica montanhesca incoesa de Thomas Mann


É louvável que alguns escritores tenham se debruçado sobre obras densas e magnânimas em termos de extensão e profundidade narrativa e recorte temático. Essa parece ser uma empreitada extremamente complexa, árdua e difícil de ser alcançada. Tanto que não são comuns obras de extensão descomunais e níveis elevados de minúcia na glosa de temáticas intricadas, só mesmo um romancista audacioso e intrépido se propõe a esse tipo de projeto literário, e, quando isso acontece, observamos que são nomes cujo trabalho como escritor já tem se desdobrado há tempo considerável, com tantas outras obras de extensão mais modesta, bem como a forma como esses artistas naufragaram em certos recortes temáticos e seus sucedâneos. Escrever um calhamaço com qualidade, não só estética, mas também conseguindo amalgamar extensão da obra e sua coerência narrativa e coesão semântica, é uma tarefa hercúlea das letras, por isso talvez menos escritores ainda tenham conseguido tal feito de forma bem-sucedida. Nesse sentido, basta olharmos para alguns títulos volumosos que permeiam a literatura de todos os tempos, sempre há uma crítica ou outra em relação a essas obras monumentais, quase nunca isentando elas de falhas, algumas simplórias e outra tão faraônicas quanto os próprios trabalhos literários. Eis que penetramos agora em um autor renomado por sucessos prodigiosos, com obras curtas e impactantes como Morte em Veneza, e outras de maior extensão, embora de densidade estética e temática impressionantes, que se transformaram em produtos literários de vultosa qualidade como é o caso de Doutor Fausto. Thomas Mann, não só por ter sido laureado com o Nobel de Literatura de 1929, mas por ser um autor hábil em criar tramas, personagens e narrações injetadas de ensaística brilhante, foi generoso com seus leitores, oferecendo obras-primas como os trabalhos citados, mas que pode decepcionar um leitor mais atento com sua obra espessa intitulada A Montanha Mágica (Companhia das Letras, tradução de Herbert Caro).
O monumental trabalho literário de Thomas Mann tem um título instigante, que leva muitos leitores a se interessarem pela obra em busca de explicações para o sugestivo ambiente que se anuncia a partir de uma possível e imediata interpretação do que pode se desdobrar naquele texto a partir da sugestão do adjetivo presente no título. Hoje, muitas pessoas se distanciariam também da obra, compelidas por um temor a esse elemento esotérico ali sugerido. Mas, não se espera que um leitor mais atento se iluda facilmente com o que o título sugere. Nas primeiras páginas do livro somos apresentados ao protagonista da obra, que o narrador onisciente já nos adverte que talvez se trate de um sujeito prosaico, trivial, sem atributos, um homem sem qualidades, aqui há uma tênue alusão ao romance de Robert Musil. A obra que se torna o clímax da produção literária do autor alemão é uma paráfrase da também obra-prima de outro autor, um austríaco? Hans Castorp, esse personagem sem atributos, esse sujeito simplório, é engenheiro e está prestes a ocupar um cargo em sua área da atuação, embora não seja exatamente um sujeito da classe desfavorecida, tanto que o resto do enredo nos leva a acompanhá-lo entre pessoas que vivem de sua própria renda, de forma não tão modesta, apesar de também não ser pródiga. Hans Castorp está indo até Davos, em um sanatório para tuberculosos onde seu primo, aspirante à carreira militar, está em tratamento da temerosa e fatal doença, seguindo o que na época era uma das formas de tratamento para a patologia, tanto que lá em Davos, encontraremos inúmeros outros personagens de todo o mundo que estão passando pelo mesmo problema persistente e às vezes letal em busca de uma cura. A princípio, Hans Castorp irá passar algumas semanas no sanatório, antes de seguir para ocupar o cargo de engenheiro que angariara.
O início da obra parece essencialmente prosaico, diríamos até mesmo insosso como tantas outras obras literárias que se arrastam em páginas e mais páginas com essa mesma madorra e insipidez. Contudo, a maestria como são narrados os eventos, cotidianos, dentro de um sanatório, a forma como o autor delineia os personagens, como os apresenta nesse palco insólito, como os descreve e perscruta seu íntimo, a construção sintática da narração, nos conduz a uma imersão imediata na obra, fazendo-nos a se apegar a ela de forma voraz, sem que nos apercebamos que as páginas foram sendo deixadas para trás. Inicialmente, a forma como Thomas Mann nos conduz pela história de Hans no Berghof se torna um tanto previsível, tanto que o leitor logo eduzirá alguns eventos futuros, que tardam dentro da narrativa devido a minúcia como o enredo é desenvolvido pelo autor, sempre de forma magistral e encantadora, embora o texto seja de uma erudição espantosa, a forma como se evidencia isso não assusta o leitor, não intimida, não o distancia do texto, mas, pelo contrário, o atrai cada vez mais. Os temas que se apresentam na obra são densos, apesar de serem temas comuns, simples, sem que estejamos alheios a eles. Talvez o que mais se evidencie seja o próprio tempo, que é analisado tanto nos personagens e sua rotina, como por meio do método narrativo do autor, que entrelaça episódios, cenas, diálogos e narração de forma a percebemos as nuances do transcorrer do tempo. Ao lado desse está a intersecção entre vida e morte, e aí está também o ubíquo tempo, a vida como tempo efêmero, e a morte como cessão do tempo. Tudo isso está sendo discutido ao longo do romance por meio de diálogos abundantes, cenas e narrativa, que nesse livro adquire uma faceta encantadora, às vezes penetrando tanto na psique e na índole do personagem que chegamos a notar que há no narrador a voz do próprio personagem, e, por outro lado, na voz do personagem o próprio olhar privilegiado do narrador, tornando essa polifonia ambígua e multilateral.
No entanto, interpolado a essa narrativa de estética deliciosa, há um episódio tão incoeso com o contexto que se delineia no restante da obra que nos faz perguntar o que o autor tinha em mente quando redigiu, reescreveu, revisou e poliu sua densa e profunda narrativa. Hans Castorp é um engenheiro de mentalidade lúcida, prática, linear e sólida. Embora os personagens apresentem diferentes nuances, a obra é notadamente uma ode à sensatez, ao ilustrado, ao lógico e coerente, tanto que o mágico da montanha em que está o sanatório Berghof não se trata de um elemento sobrenatural, metafísico, e personagens com Naphta e Settembrini também ampliam e salientam essa natureza racional da narrativa, do tratamento dado aos temas, da forma como são analisados amor, morte, o tempo, a sociedade local em justaposição ao contexto global. Tudo no romance se desenvolve seguindo essa percepção lúcida, sensata e filosófica, imprimindo no texto ficcional um caráter linear, quase dissertativo-narrativo, ensaístico em atos e cenas. Contudo, toda essa solidez e materialidade é rompida com um episódio narrado nas páginas finais do romance, um episódio que traduz o mágico em estilo fantástico, rompendo com a estrutura realista da obra, onde o mágico era puramente um recurso estético construído a partir de metáforas. O leitor queda-se aturdido com a interpolação desse episódio, incrédulo, suspeitando que tudo culmine em uma desconstrução daquilo, aguardando que tudo que é narrado se revele como uma fraude de alguns personagens que surgem nesse ponto da narrativa e a obra realinhe-se ao seu estilo natural e científico, material e lúcido, transformando esse deslize em um apêndice para contrapor o fluxo narrativo com o qual nos deparamos desde o início do texto.
Escrever uma obra espessa é uma tarefa magistral e complexa, assim como o é lê-la e encontrar-se dentro do que é lido, bem como encontrar tudo que ali é inserido, semeado e cultivado em construções, estilos, recursos estéticos e arranjos linguísticos. Obras literárias volumosas são sempre um desafio, para autor e leitor. Contudo, quase sempre nos frustramos ao seguirmos por esse caminho, decifrar uma obra densa exige trabalho, dedicação, atenção, estudo cuidadoso e leitura e releitura atenta e crítica. Contudo, escrever um calhamaço de forma bem-sucedida é também um desafio extremo, que às vezes não se revela trabalho concluído com o êxito que nos apresentam em resenhas e críticas sugestivas e superficiais. A coesão semântica é um ponto chave de um trabalho exitoso, de um texto exitoso, seja ele ficcional ou ensaístico. Quebrar a coesão semântica é oferecer ao leitor uma obra que não atingiu sua grandiosidade totalitária. Nas aulas introdutórias à teoria do texto aprendemos que o texto é um tecido formado por fios que se entrelaçam com tal precisão que forma uma unidade indissociável e perfeita. Thomas Mann quebra o entrelaçamento dos fios de sua narrativa e nos oferece uma montanha prestidigitadora, não mágica em si. A metafísica de comer chocolate de Pessoa não foi seguida à risca pelo autor alemão, ele preferiu a metafísica de um evento impossivelmente irreal dentro de uma obra verdadeiramente realista.

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