Na literatura alguns jogos são sempre
permitidos, como em tantas outras artes. Há jogos em ritmo, harmonia, formas,
sons, tons, linhas. Esses jogos tornam as artes plurissignificativas, com doses
cada vez mais intensas de significações, é a semântica da arte, uma forma de
dizer que ela é sempre ambígua, que admite inúmeras interpretações, admite
perspectivas que podem, e muitas vezes necessariamente, vão destoar. O que
seria da arte se ela fosse o que se convencionou chamar de objetivo, direto e
unívoco? Nesse jogo, José Saramago, escritor português galardoado com o Prêmio
Nobel de Literatura de 1998, é um exímio artífice.
Escreve Saramago um romance denso e crítico,
com questionamentos pertinentes ao mundo em que vivemos, o mundo que desnudamos
a cada amanhecer e que compreendemos cada vez menos. Esse romance de Saramago
recebe o nome de ensaio em seu título, como se propusesse a discorrer sobre um
tema de maneira formal, seguindo os ditames dos textos dissertativos, a que devemos
ao menos por enquanto enquadrar o ensaio, seguindo a lógica proposta por
Montaigne, seu inegável criador enquanto gênero.
É preciso dizer mais sobre esse romancista
português que escreveu um punhado de obras enquanto propagou seu ateísmo de
maneira ostensiva e irônica pelo mundo afora, bem como suas ideias nada sutis
em termos políticos, levando a receber críticas duras de todos os cantos, entre
jornalistas e intelectuais achegados ao neoliberalismo. Saramago escrevia com a
veleidade de um Fernando Pessoa, criando uma estilística enfadonha em que se
tornam dignos de existência apenas o ponto e a vírgula, o que torna seus textos
nada apetitosos a perfeccionistas e metódicos. A desordem de um capítulo de um
de seus romances é aterradora devido seu estilo próprio de compor suas obras.
Esse monopólio do ponto e da vírgula nos conduzem naturalmente a alguns
entraves, e o primeiro deles é redigir parágrafos curtos. Seus parágrafos se
perdem páginas adentro, em perfeito desalinho, com falas entremeadas sem os
costumeiros e ordeiros dois pontos e as aspas ou travessão ou mesmo um hífen
como se dá em obras mais recentes. As falas dos seus personagens se tornam
outra dor de cabeça dos infernos porque estão perdidas dentro da narração, se
mesclando à voz do narrador, com a simples distinção de iniciarem com
maiúsculas, creio que devamos agradecer por isso já que ele em outros momentos
se nega a usá-las para substantivos próprios, como podemos notar na obra que
aqui será brevemente examinada, As
Intermitências da Morte.
No que diz respeito ao romance As Intermitências da Morte, o que
podemos esperar desse incomum e penetrante escritor? A proposta é cativante
desde seu argumento. Em um país que nunca saberemos qual é, embora possamos
fazer uma série de suposições, de um dia para outro não se morre mais. A morte,
de alguma forma inexplicável, abandona seu posto. Naquele país, com um governo
monárquico, a morte se torna um súdito em exílio. O que a princípio pode
parecer uma bênção em pouco tempo revela-se um tanto preocupante, desagradável
e até mesmo medonho. Nesse jogo que é já uma espécie de romance fantástico no
mais ambicioso estilo de autores como Jorge Luís Borges e Salman Rushdie,
Saramago introduz toda sua ironia, seu humor sutil e delicioso, que se aglutina
à sua narrativa fluída e convidativa para nos convencer a seguir página após
páginas para saber o que acontecerá nessa nação diante de fato tão
inacreditável.
Embora a trama comece tímida, com uma
construção narrativa um tanto simplória, com personagens universais e amorfos,
reduzidos a títulos e estereótipos, sem qualquer profundidade psicológica,
inteiramente planos, isto é, sem complexidade identitária, isso não perdura por
toda a obra e nos é retribuído em determinado momento com seu adverso. Surge,
dentro da história, personagens que são densos, que trazem em si tantos
elementos singulares e uma forma de construção cuidadosa e delicada, que
naufragamos em sua dimensão humana, embora isso seja apenas aqui entendido como
um termo catacrético, visto que dois desses personagens são classificados em
uma esfera que foge da mortalidade, da humanidade em sua caracterização típica.
Temos, por outro lado, diálogos memoráveis, e embora as falas pareçam ter vindo
do mesmo sujeito em sua ironia, uniformidade expressiva, léxico e até mesmo
sintaxe, adquirem uma dimensão de alteridade, percebe-se uma diversidade de
vozes, uma polifonia naqueles personagens e suas falas sarcásticas, aguçadas e
hilariantes.
Se prestarmos bastante atenção aos primeiros
capítulos da obra, notaremos que a proposta do autor é narrar os desafios,
alegrias e desavenças que a ausência súbita da morte traz para este país e sua
população que é um retrato fidedigno da humanidade em seus vícios e virtudes,
afetos e desafetos, ética e antiética, sublime e grotesco. Somos conduzidos aos
bastidores do poder, às conversas entre primeiro-ministro, bispo e rei, que
tentam enfrentar a situação e não permitir que uma nação inteira se desmorone,
somos conduzidos aos problemas sociais, políticos, religiosos e ideológicos que
a ausência da morte traz, bem como também aos seus possíveis privilégios, que
há quem se torne feliz e bendiga o que destino de todo um povo condenado à
imortalidade. Essa narrativa, que podemos agrupar em uma primeira parte do
romance, é universal, global, impessoal, tanto que os personagens não têm nome,
suas identidades são dispersas, sem contornos claros, definidos. Assim, também
não desvendamos quem de fato é o protagonista dessa fábula mortal, isto é,
sobre a morte, sobre as intermitências da morte, como nos propõe o próprio
autor desse instigante relato.
No entanto, é justamente na segunda
parte, capítulos que se sucedem após um fato inusitado nessa situação já
extremamente atípica, que tornam o livro de Saramago uma verdadeira obra-prima.
São nos capítulos que se desenrolam do meio para o fim do livro que temos de
fato uma brilhante narrativa, poética e fabulosa, em que nós encaramos a face
de seu protagonista, que já conhecido de todos nós desde o início do romance,
mas que estava distante do centro do palco, e que assume suas próprias facetas,
com uma personalidade nunca imaginada, retratada de maneira deleitosa,
tornando-o menos caricato, menos lugar-comum, desde suas ações até seu pequeno
universo, que também começa ser delineado pelo autor nessas páginas finais da
obra. No final, diante do mais clássico dos sentimentos, nos rendemos ao
absurdo e ao caótico que se desponta, em um desfecho que impressiona, emociona
e cativa ainda mais os leitores, um final sensível, inesperado, penetrante é poético
que termina até mesmo com uma anáfora, tão comum e cara ao gênero poema.
Quando terminamos de ler esse livro
de José Saramago lhe perdoamos sua escrita enfadonha devido à sua pontuação
rebelde, é o mínimo com que podemos adjetivar seu modo de redigir. É uma tarefa
árdua ler as primeiras páginas do livro, inquieto com sua gramática peculiar,
com sua forma textual totalmente anárquica, embora se perceba que nessa sua
desordem há planejamento e intenção, como se pode naturalmente inferir que
seria em se tratando de um escritor talentoso. O livro nos recompensa pelos
primeiros capítulos corriqueiros e prosaicos, que não trazem tanto brilhantismo
em termos de enredo e uma trama muito anedótica, seguindo ponto após ponto em
uma lista de efeitos do fenômeno informado no início do relato. Mas tudo isso é
convertido no mais espetacular dos enredos, na mais primorosa das tramas, o segundo
ato, se esse livro fosse uma peça em dois atos, é o mais cativante e lírico que
se poderia esperar, tornando os leitores ávidos por sua conclusão e quando ela
nos é oferecida torna-se um espetáculo digno dos mais estrondosos aplausos.

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