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A escrita estelífera de Sidney Sheldon


Hoje se constroem diferentes tipos de leitores e a leitura se tornou uma atividade que se desdobra em diferentes segmentos sociais, assumindo papéis inéditos. Ela tem sido emprega como ferramenta de socialização, de democratização de saberes, de engajamento, de manifestação política e tem se tornado um acessório para campos diversos, se tornando um elemento com inúmeros significados na nossa civilização que está imersa na chamada Era da Informação. Se estamos em uma era que é marcada pela informação, a leitura se torna uma peça fundamental para o contato social, para as interações nesse contexto em que agrupamentos informativos são fundamentais. Ela também se torna um campo controverso, em meio ao qual se avolumam suas próprias polêmicas. Está a se construir agora uma sociedade de leitores, que como todas as sociedades começam a estabelecer hierarquias em seu meio de convívio. Assim, temos as leituras simples, na base dessa pirâmide social leitora, e as leituras sofisticadas, no topo desse universo dinâmico e sapiencial.
Tudo isso é uma construção social passível de inúmeras críticas, sobretudo por alguns dos intelectuais mais perspicazes, que tentam desfazer essas ideias muitas vezes abarrotadas de preconceito e equívocos sobre a arte literária e sobretudo sobre o universo dos livros e da leitura. Toda leitura terá seu significado, sua dimensão e seu espaço na construção de saberes, na assimilação de estruturas interpretativas e na mobilização de elementos compreensivos que podem forjar a bagagem do leitor para seu contato com o mundo ao seu redor e principalmente para sua permanência no mundo dos livros de forma crítica, autônoma e criativa, a leitura também é uma atividade criativa, produtiva, uma vez que ela desemboca na construção de ideais, saberes e aportes que dão sustentação à nossa visão de mundo, que, após um volume crescente de leituras, se amplia e se torna mais complexo, abrangente e rico.
Em algum momento vamos ouvir que alguém que não lê determinado autor porque ele escreve de forma muito simples ou simplória, se o sujeito em questão tiver construído um léxico mais consistente, e que seus textos são o que se poderia chamar de plebeísmos literários, algo muito vulgar e tosco que não vale a pena ser considerado literatura. O que se pretende com esse discurso é criar um status de alta literatura que fará as costumeiras distinções e segregações sociais que a humanidade tenta impor a tudo ao longo da história, desde a Antiguidade até os dias hodiernos. Sidney Sheldon, escritor norte-americano, embora tenha escrito inúmeras obras literárias que alcançaram sucesso imediato, se tornando fenômenos de venda em todo o mundo, nunca conseguiu convencer a crítica literária da qualidade de seus textos, do valor estético de sua obra. Partindo dessa ojeriza da crítica ao autor, muito similar ao que acontece com o autor brasileiro Paulo Coelho e tantos outros nomes nacionais e internacionais, podemos adjetivar sua obra como desprovida de valor literário, estético e estilístico? Para tentarmos responder a essa pergunta, examinaremos em seus traços principais o livro Escrito nas Estrelas, obra de Sidney Sheldon que narra uma jornada de artimanhas e trapaças no mundo dos negócios em uma trama com os elementos básicos adotados pelo autor em seus escritos.
O sumário da narrativa é uma jovem que sai de uma cidade pequena, onde se inicia sua carreira como incorporadora imobiliária, para conquistar os EUA e depois o mundo. O início da trajetória da irresistível protagonista, Lara Cameron, é marcado pela perda, pelo fracasso, pela pobreza, pela derrota, pela dor e pelo desafeto, em uma relação conturbada e desalentadora com seu pai, que é um homem que sempre foi assolado por uma visão pessimista que acreditava que sua condição era obra mística do destino. A trama se desenvolve então em torno da formação da personagem, como ela constrói seu conhecimento de mundo, como ela edifica sua visão sobre as pessoas, sobre os negócios, sobre o trabalho e sobre a vida. A suas vivências na pensão que vivia com seu pai e que depois passou a administrar modelam seu caráter e sua personalidade, sobretudo sua foram de sentir e se envolver emocionalmente com os demais, criando sérias barreiras em sua forma de criar e manter vínculos sociais. Um dos pontos altamente elogiáveis da narrativa até aqui é a construção complexa da protagonista, que está trabalhada de forma exaustiva pelo autor com episódios que se sucedem de forma ininterrupta nas primeiras páginas do romance. Em vez de se alongar em narração do tipo sumário, Sidney Sheldon deslinda a construção de Lara Cameron em narração do tipo cena, com inúmeros recursos narrativos como a analepse. O discurso direto é empregado pelo autor de forma magistral, com um traquejo invejável para tantos outros romancistas e novelistas hodiernos e do passado, ele sabe como inserir nas falas de seus personagens vozes autênticas e genuínas, sem destoar de seu perfil existencial. Se temos um empresário, ele fala com a voz de um empresário, se temos um lenhador, ele fala com a voz de um lenhador, e assim se sucede do início ao término da narrativa, trazendo para o palco personagens vívidos, projetados com profundidade formal de modo a se tornarem pessoas verossímeis.
Se quisermos analisar o enredo, não encontraremos muitos defeitos em sua construção do cenário e dos elementos desencadeadores da trama. Sidney Sheldon conseguiu ao longo de sua vida escrever roteiros cinematográficos e uma porção de livros, além de peças e teatro. Ele também foi premiado nesses seus hábeis projetos artísticos. Foi galardoado com o Oscar, a honraria do cinema norte-americano e também cobiçado em todo o mundo, o Tony, no campo do teatro, e o Edgar Allan Poe, da literatura de suspense. Em Escrito nas Estrelas encontramos seu notável talento nesses três campos. O desenvolvimento da narrativa é muito similar ao de um filme, percebemos até mesmo a decupagem no ordenamento das cenas se formos bem atentos a como a história está nos sendo contada, encontrando também no corpus da narrativa os mesmos traços comuns ao roteiro, com sua estruturação cênica e seu encadeamento de fatos e episódios para compor uma trama vertiginosa e frenética, em ritmo acelerado e cativante, que fisgue o leitor da primeira até a última página. As falas, como já mencionado, são espontâneas e viscerais em cada personagem, se mesclando de forma primorosa com sua tessitura dentro do enredo, o que notadamente demonstra seu exímio talento para a narrativa teatral que se consolida com o discurso direto. A história em momento algum se torna duvidosa, questionável do ponto de vista estrutural, os episódios mantêm-se coesos dentro do argumento que desencadeou a narrativa, mostrando que o autor sabe como entrelaçar os fios da narrativa sem perder a visão global de sua obra.
Um autor pode ter todo esse talento e sua obra ser considerada frívola? Certamente isso é possível e até mesmo compreensível. Os críticos podem apresentar inúmeros motivos para depreciar esse autor. Um deles é o de que seu estilo é inconsistente, débil em sua forma e sintaxe, sem beleza estética e estilística, meramente dionisíaco. Sim, temos de admitir que Sidney Sheldon não é um esteta de marca maior, isso seria uma tolice diante do que lemos, ainda que estejamos sob a ótica de uma tradução e não dos textos originais em inglês. Contudo, a tradução, que é em si uma leitura da obra original em sua língua vernácula, também é capaz de traduzir, de transpor de uma língua para outra, esses recursos estéticos e estilísticos, desde que seja objetivo do tradutor fazer essa transposição.
Obviamente, também não podemos deixar de apontar alguns predicados que fazem da obra de Sidney Sheldon notável em sua estética. Primeiro, sua sintaxe é concisa e despida de floreios industriosos e aborrecíveis. Algumas obras se tornam monótonas e insípidas porque seus autores abusam de descrições e da construção de imagens por meio da linguagem. Sheldon tece sua narrativa de forma direta, como os seus diálogos, seca e sintética. Esse estilo desnudo de adjuntos em cada oração, em cada parágrafo e em cada cena não deixa de ser menos exuberante e apetitoso, nem mesmo se torna despido de beleza. O léxico em sua obra acompanha os seus personagens e ele cria metáforas que são parte do universo desbravado, a música clássica e o mundo da incorporação imobiliária tomam quase toda a obra e é a partir dessas duas linguagens que ele cria suas figuras de linguagem e seus recursos expressivos dentro da narração. Segundo, Sidney Sheldon não escreve totalmente desprovido de estilística artística, isso é atestado pelas imagens que são criadas por meio da trama e seus oximoros episódicos, que são marcantes e penetrantes, levando o leitor ao êxtase, ruminando esses elementos continuamente ao longo da leitura da obra. Finalmente, quando julgado necessário pelo autor, ele adota um estilo mais poético e lírico em sua narração, é o que notamos em uma cena no final do capítulo vinte e dois do romance, em que Lara está nos braços de seu adorável amante, o músico Philip Adler.
A leitura não deveria ser tratada como um fenômeno linear e sujeito a escalonamentos ridículos que tentam criar perfis superiores e inferiores de leitores e obras literárias. Ela é capaz de nos tocar e enriquecer em aspectos e contextos diversos, múltiplos e sob as formas mais contraditórias que se possa imaginar, afinal, somos feitos de emoções conflitantes e ideários paradoxais, somos constituídos de antíteses e arte é a expressão mais literal de nossa condição humana perfectível. Ler autores como Sidney Sheldon e julgá-los frívolos e supérfluos pode, a princípio, ser uma atitude despida de argumentos consistentes oriunda de uma falta de conhecimento sobre o autor, sua escrita, os métodos e recursos narrativos e até mesmo sobre a linguagem literária e arte, de forma genérica. A escrita de Sidney Sheldon é como uma estrela que empresta sua existência e simbolismo metafórico para o título de seu livro, ela nos contempla de sua imensa distância e nos apercebe em sua pequenez diante de sua semântica e exegese. Talvez por estarmos tão distantes dos elementos que só observamos a anos-luz não sejamos capazes de notar sua complexidade e fulgor, um fulgor que não se sustenta como sendo ilusório e corriqueiro, mas que assinala seu vigor estético.

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