No início de cada ano letivo, os professores
sempre se deparam com desafios inéditos que se amontoam aos já enfrentados de
modo que suas estratégias precisam ser remodeladas a fim de que sua prática
pedagógica seja eficaz. O ensino e a aprendizagem são atividades criativas e
isso permite que cada um de nós repense as posturas assumidas diante dos dois
processos.
Aprender não é apenas assimilar conteúdos,
não é unicamente absorver informações e poder recorrer a elas como se consultássemos
uma enciclopédia instalada em nossa mente. A aprendizagem inclui o acesso a
informações e sua configuração em estruturas interpretativas e explicativas, a
capacidade de recriar essas informações em novos arranjos, de combiná-las,
justapô-las, sobrepô-las de modo a gerar aportes que usamos para entender a nós
mesmos, o mundo e os demais e para explicar o que pensamos e sentimos. De forma
homóloga, ensinar não se resume a apenas transmitir informações e assegurar que
os aprendizes venham se apossar desses elementos interpretativos e
explicativos, sendo-lhes possível mobilizá-los em situações avaliativas ou
corriqueiras.
O que inviabiliza o ensino é a ideia de que
só precisamos transferir um conteúdo concreto ou abstrato ao aluno e isso é
possível de forma paradigmática e unívoca, seguindo protocolos previamente
fixados. O ensino envolve criar possibilidades tangíveis das estruturas
informativas serem compreendidas pelo aluno e instigá-los a manipulá-las de
forma original e inventiva, inserindo nesse processo sua subjetividade de modo
a criar uma modelagem própria desses conhecimentos. Isso significa tornar o
processo de ensino uma situação criativa e multiforme, permitindo a amálgama de
formas, métodos, técnicas e normas em transposição não linear nem adstrita. Em
termos práticos, o professor precisa produzir seus materiais, métodos, técnicas
e normas de forma peculiar e tomando como base seu público-alvo a fim de que
seus recursos didáticos, tanto técnicos quanto materiais, sejam contextuais em termos
de cenário, personagens e enredo.
O que mais assistimos tem sido a
adesão a um modelo previamente estabelecido que é seguido de forma automática
pelo professor. A educação como processo sistemático de transferência, que já
foi criticada por um dos maiores teóricos nacionais em seu aspecto depositário,
é a que mais tem sido praticada nas salas de aula e em todas as áreas do
conhecimento. Parte desse processo se deve a uma visão do professor de apenas
seguir manuais, sem preocupar-se com sua própria experiência, com a reflexão de
sua prática pedagógica cotidiana e sua constante remodelagem de todo esse
acervo que pode norteá-lo nos processos de ensino e aprendizagem, mas nunca
deve ser seguido rigidamente e muito menos cegamente, sem as necessárias e
pontuais adequações contextuais que já mencionamos.
Diante do conhecimento produzido por
outros teóricos, pensadores, pesquisadores e estudiosos, o professor se torna
um tanto acomodado, esperando que tudo que é lido e encontrado nos compêndios
possa dizer-lhe, se não lhe ditar, o que deve ser feito e como deve ser feito
em sala de aula no ensino de Língua Portuguesa e Literatura, Física ou até
mesmo História e Matemática. Não há uma propensão muito ampla em se destoar
desse paradigma que tem tornado as aulas um processo estandardizado, mercadológico
e capitalista em sua dimensão metodológica, o que naturalmente cativa muito
pouco a atenção dos alunos e torna a aprendizagem uma atividade insípida e
repetitiva, mecânica e inflexível, sem as possibilidades plurais que
permitiriam distintos percursos de construção do saber pelo aluno.
Nesse sentido, a costumeira postura de
professores que recorrem a manuais de ensino e empregam os métodos e técnicas
neles definidos de forma acrítica, sem fazer as necessárias adaptações
pessoais, usando seu talento criativo, é absolutamente reprovável, sendo
necessária uma revisão crítica de sua práxis levando-se em consideração os
postulados aqui expostos, que, a saber, também não podem ser encarados como
leis invioláveis e inquestionáveis e sim que também devem ser filtrados por
cada docente a partir de sua trajetória pedagógica, sua postura didática e seus
saberes.
Os processos de ensino e aprendizagem podem
se amalgamar de forma criativa, tanto o professor quanto o aluno podem
desenvolver um percurso que se entrecruze e partir de sua subjetividade,
desenvolvendo itinerários pessoais para a construção do conhecimento. É
indispensável que se recorra a paradigmas e aportes teóricos e metodológicos
como uma referência para o trabalho em sala de aula, como ponto de partida para
sua atuação e reflexão do fazer pedagógico, mas ficar submisso a esses
materiais e métodos revela um professor que não é capaz de gerir e produzir
conhecimentos e saberes e que, portanto, será também incapaz de conduzir o
aluno em um processo satisfatório de construção de conhecimentos significativos.
Essa construção no aluno deve ocorrer naturalmente quando o professor sabe
aplicar de forma contextual saberes consolidados, imprimindo-lhes sua marca pessoal.
No início de cada ano letivo, os professores
se preocupam naturalmente com os desafios que surgirão ao longo do ano, desde
seu limiar, com novas turmas, novos alunos, demandas, inquietações, perfis
antagônicos, toda a diversidade de humor, índole, perspectivas e posturas
diante dos mais conflitantes cenários tanto para os alunos quanto para os
professores. É muito comum, desde as primeiras conversas de preparação para o
ano letivo que se inicia, tentar encontrar soluções eficazes para a indisciplina,
para a infrequência, para a indisposição dos alunos para assistir às aulas e
participar ativamente delas, para a realização das atividades propostas pelos
professores que são negligenciadas por um percentual da turma que assusta desde
o docente até à coordenação pedagógica e o próprio diretor da escola. Muitas
ideias são apresentadas, especialistas são consultados, caminhos e estratégias
são traçados, projetos são esboçados e intervenções idealizadas e projetadas com
afinco. Talvez devêssemos começar, no próximo início de ano letivo, diante de
todos esses problemas, repensando a forma como adotamos uma dinâmica
didático-pedagógica há muito debilitada e partindo para uma reconstrução de
nossa metodologia de ensino, reconstruindo nossa metodologia de ensino de forma
intertextual e não, plagiária.

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