O
que a literatura deve nos proporcionar? Essa talvez seja uma pergunta cíclica
para leitores, críticos literários e escritores. Talvez nunca venhamos nos
cansar de fazer perguntas dessa natureza e é muito provável também que as
respostas sejam enleadas de ambiguidade, de uma multiplicidade semântica indefinível,
que emerjam inúmeras e distintas respostas que nos inquietem, que nos coloquem
em situação conflitante e limítrofe. Quem se fizer essa pergunta agora pode
encontrar para ela uma resposta que amanhã se torne despida de significado para
si mesmo. O que me impele aos livros? O que de fato eu procuro neles? Por que
dedico horas e horas de meu dia, de minha semana, de meu mês e do meu ano aos
livros? O que tenciono encontra neles, que enredo, argumento, narrativa,
narração, estilo, autor, gênero tem me atraído? Indagar é um passo fundamental
para a descoberta, um passo necessário, e a mesma inclinação ao questionamento
é fundante, seminal, para o conhecimento verdadeiro. Quando assumimos a postura
de leitores, contudo, nos embriagamos com os livros e esquecemos de fazer
algumas perguntas, às vezes não indagamos sobre nada, nem mesmo por que o autor
deu aquele título à sua obra.
Conceição Evaristo é uma escritora
que tece narrativas que se encontram dispersas nas tramas da realidade
cotidiana, aquela mesma que aprece nas manchetes de jornais, nos artigos de
revistas, nos portais de notícias da internet. Parece que é dali que sai os
motes para seus textos em Olhos d’Água,
livro da autora publicado pela Pallas Editora. Podemos encontrar os enredos das
peças que estão nesse livro em outros veículos de informação, em outros
trabalhos escritos, provavelmente, já ouvimos algumas dessas histórias, já
assistimos a esses episódios se desenrolarem diante de nossos olhos em obras
cinematográficas e televisivas, já lemos de relance sobre algo parecido,
similar ao extremo, em algum lugar. Será que por ser tramas corriqueiras elas
são de valor questionável na obra da autora mineira? Só se julgarmos a
literatura uma arte simplória, que não consegue pintar com as arcaicas cores
obras intrigantes e cativantes, que se apresentam com uma aura de ineditismo e
brilho original. Consegue Evaristo embrenhar-se por esse caminho? Consegue ela
fazer com que seu livro se nos apresente com velhos temas, cenários,
personagens e tramas de maneira singular? Em vez de oferecer uma resposta
simples e direta, nos cabe fornecer os elementos necessários ao leitor conduzir
sua própria reflexão em busca de uma conclusão por si mesmo.
Olhos
d’Água é um livro de contos curtos que nos evoca o mundo marginal da
sociedade atual. Seus personagens são os espaços e arquétipos negligenciados
pela civilização, são aqueles que são esquecidos pelas políticas públicas, que
são esquecidos pela educação formal, que são esquecidos em sua cultura e
identidade social, que são esquecidos nos discursos acadêmicos, mas que
resistem a isso desde tempos imemoriais. Em temporalidades distintas, foram
adjetivados de diferentes formas, desclassificados, marginais, suburbanos, a
base da pirâmide social, aquela base que não cativa a atenção dos estamentos
acima. Nas peças que compõem o livro, somos conduzidos a cenários e personagens
que estão entrevistos em nossos produtos culturais, inclusive em outras obras
ficcionais. Contudo, entrevistos sugere um olhar de soslaio, cenários e
personagens que nunca ocupam o centro do palco, que estão apenas ali para
assegura uma política de inserção de minorias, uma tentativa tosca de fazer
justiça social, em Conceição Evaristo esses personagens são protagonistas, não
meros coadjuvantes. Esse protagonismo, contudo, não pode ser confundido com o
protagonismo presente em tantas outras obras, que denotam um distanciamento do
olhar, um trato superficial e estereotipado, seguindo protocolos rígidos, em
tom caricatural e livresco na acepção mais rudimentar do termo. O protagonismo
que Conceição Evaristo imprime nesses personagens é vívido, nu e seco, tão seco
quanto o tom narrativo de Graciliano Ramos ou Rachel de Queiroz em O Quinze, ao fazer um esboço da vida
sertaneja. Temos talvez de forma inequívoca uma narradora que não teme escrever
sobre esses personagens, revelando que eles também são complexos, também são
esféricos, que são coerentes e ao mesmo tempo paradoxais, com um perfil
ambíguo, capaz de assumirem funções antagônicas no desenrolar do enredo, sem
que venhamos rotulá-los de acordo com sua folha de rosto.
Construir esses cenários é um feito
e tanto, congregando os elementos e recursos literários existentes desde sempre
para nos descrever o submundo e o mundo outro que só enxergamos pelas lentes
alheias de quem sobre ele se debruça em sua condição privilegiada. A capacidade
da autora de imergir nos ambientes, nos contextos onde aquelas narrativas se
tornam possíveis é marcada pelo recorte dos cenários, pela lente que ela usa
para nos fazer enxergá-los em seus aspectos essenciais, sem deter-se em
descrições, mas enriquecendo seu retrato com rubricas fundamentais que se
confundem com os personagens e suas falas, alternando o foco narrativo, ora nos
permitindo penetrar na mente turbulenta de seus personagens e ora nos
distanciado deles, com um olhar frio, asséptico, na dimensão que essa palavra
vem se concretizar na lírica de João Cabral de Mello Neto, deixando ali fixado
todos esses traços básicos e significativos das leituras da autora, tanto de
outros autores quanto de personagens reais e cenários reais, de vidas possíveis
e episódios fatídicos. Sua crueza e simplicidade narrativa é majestosa quando
ela costura os farrapos de seus personagens humanos, demasiado humanos. Esses
personagens que são um elenco do que a sociedade anseia rejeitar e esquecer,
salta diante de nós pela linguagem polissêmica da autora, que tanto no uso do
léxico cuidadoso, quanto nas construções sintagmáticas, tenta nos fazer
enxergar a multiplicidade de sentimentos e pensamentos que atravessam sua obra,
aqueles cenários, aqueles personagens e aquelas tramas, que absurdamente reais
tendem a nos fazer questionar os limites da ficção e do mundo tangível, essa
ficção é um retrato cruel que ansiamos esquecer, suplicando para que nosso
coração nos acalme ao evocar a sua tessitura ficcional.
A grandiosidade da temática é
espantosa, narrar episódios assombrosos, alguns repugnantes, outros
revoltantes. A obra se constrói em cenas e narração sumária, em alguns momentos
acompanhamos toda uma saga de um personagem, em outros apenas alguns recortes
desse trajeto para nos depararmos com uma trama simples do dia a dia, que
termina de forma profundamente dramática. Sim, a musa que Conceição Evaristo
evocou em sua obra é Melpômene, se esgueirando por cada peça que ela escreveu em
sua coletânea, sendo perseguida por uma linguagem sutil, simples e ritmada,
intercalando em momentos inesperados doses de lirismo e até mesmo divagações
metafísicas que podem passar despercebidas pelo leitor. Sua prosa é composta
por um vocabulário meticulosamente engajado em sua temática, distanciando-se da
voz da narradora e assumindo as nuances de seus personagens, se confundindo em
alguns momentos com a narração. Um dos pontos centrais da narrativa em suas
peças é a assunção dos papéis que são apresentados, a capacidade descritiva da
autora para nos fazer enxergar os personagens não apenas em sua aparência, mas
de nos fazer perscrutar intimamente cada um deles. Essas descrições não são
apenas textuais e inseridas no discurso indireto, mas estão também no discurso
direto e nos faz deparar-nos com personagens vertiginosamente pulsantes, que se
tornam mais que arquétipos que poderíamos encontrar em outras composições desse
gênero.
As lágrimas são ambíguas e assumem
aspectos conflitantes, antitéticos, complementares, elucidativos, vagos,
precisos, imprecisos. Lacrimejamos de alegria, de tristeza, de angústia, de
prazer. O que mais poderia caber em nossos olhos lacrimejantes? O que nossas
lágrimas podem dizer? Elas são como palavras, temos um vocabulário próprio,
feitos com a linguagem dos olhos. Conceição Evaristo nos presenteia com
lágrimas plurissignificativas, que contam histórias impossivelmente
atordoantes, emotivas, perturbadoras, viscerais. Em sua maestria narrativa, nos
convida a pensar cenários e personagens por meio de um ângulo mais profundo,
menos simplório, nos convida a embrenharmos em almas conturbadas, inseguras,
prazerosas, deleitosas e irresistivelmente similares a nós. Os contornos
étnicos, os preconceitos, os estereótipos, os paradigmas, os arquétipos aqui se
amalgamam, se contradizem, se coadunam, se distanciam e se alongam, eles
lacrimejam e cabe a nós tentar decifrar os significados dessas lágrimas que
saltam de olhos múltiplos, inclusive dos nossos.

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