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Epifania, de Roberto N. Bittencourt: a literatura como iluminação


Quando falamos sobre poesia tudo se torna mais difícil, complicado, intricado e avassalador. Nada no universo em que habitam os versos, a prosa lírica, a poética, é simples e fácil de se entender e de se explicar. Sabemos que a poesia enquanto gênero poético, uma vez que estamos a usar aqui a terminologia em sentido do gênero poético, seja ele em verso ou em prosa, dados os poemas em prosa   que também aqui se encaixam com suma perfeição, tem uma longa tradição e está intimamente vinculada a outras manifestações artísticas, como a música e a dança, embora possamos associá-la em linhas gerais a todas às demais manifestações artísticas, teremos o lirismo dos traços de um desenhista, a musicalidade das formas de uma construção arquitetônica, a sofisticada rima dos passos de uma dança e assim sucessivamente, tornado os elementos da poesia comuns às artes em suas múltiplas facetas. Nesse conjunto panorâmico e repleto de sentidos e nuances estéticas, a poesia se torna uma arte das mais complexas, tanto para produção quanto para sua leitura e fruição. O prazer do texto na Antiguidade era a poesia, que estava muito associada a música, e os versos dos mais antigos poemas épicos foram em sua gênese cantados, acompanhados de instrumentos musicais, hoje o poema está imerso em uma condição separatista, isso quando fazemos um exame da poesia em sua manifestação mais evidente, nos livros de poemas, nas antologias. Mas, desde o modernismo de 30, a poesia tem se revelado para nós, brasileiros, um tanto vaga, em alguns momentos contundente, enigmática, simplória, grotesca, vulgar e inquietante. Tivemos alguns experimentalismos na produção poética que tentou revigorar o gênero em terras nacionais, contudo, ainda parece que estamos muito distantes da poesia, ela agora só se nos revela na música, no cinema e em outras obras que trazem alguns versos perdidos lá dentro, como uma alusão nostálgica a um passado jubiloso.
Nesse mar de antologias, algumas recentes, tivemos experimentado uma poesia brasileira multifacetada, que remonta aos clássicos, que cria novas texturas linguísticas, que amplia os simbolismos da prosa e do verso, da sintaxe poética, que tenta nos fazer sair de nossa letargia para com a poesia. Ainda permanecemos imersos nesse distanciamento, fisgados nos romances, na literatura facilmente captável, elucidativa, prosaica, em uma estrutura que não nos exija a mobilização de nosso pensamento e de nossas emoções ao mesmo tempo, mas sim de forma gradativa, aqui mais um recurso caro à poesia, e que nos torne leitores rasos, incapazes até mesmo de reconhecer obras poéticas em prosa, algo impensável nos leitores de outrora, mais dados à arte poética. O ficcionista e ensaísta Roberto N. Bittencourt nos convida em seu livro Epifania a repensar toda a trajetória da poesia, das antologias, dos livros em versos, da prosa poética e do verso prosaico, em sentido de simplicidade e comunicação direta com o leitor e suas idiossincrasias. Mergulhar nesse livreto, trata-se de uma obra extremamente curta, é uma experiência soberba, fascinante e poliédrica, algo que não imaginamos ser possível em tão poucas páginas, uma das ilusões de seu verso simples e contiguamente complexo e intricado.
Quanto ao tamanho da obra, não se iluda pelas aparências. Não é um livreto para ser lido em um fôlego, como um dos poemas que ele traz, que pode ser lido sem que tenhamos de recorrer ao ar para tornar a encher nossos pulmões. Epifania conta com apenas quarenta poemas, que se alternam em tamanho e profundida temática e semântica, indissociavelmente. O menor dos poemas do livro, Abismos, equivale a uma odisseia homérica, tanto no que o autor propõe em seu mote, quanto em sua estrutura e sua construção linguística. Esse poemeto tem uma densidade em sua única estrofe de cinco versos que nos assusta, ao lermos nos perdemos em tudo que ele sugere com suas assonâncias, com seu léxico meticulosamente arquitetado para nos fazer planar em seus sentidos expostos e latentes. É um poemeto que se nos apresenta como uma boneca russa, e a cada camada de significações que vamos desvendando, sempre surge outra, nos confundindo, nos impressionando e nos convidando a perscrutá-lo cada vez mais. Desde seu título até seu conteúdo, sua morfologia, somos levados a mergulhar em uma profunda introspecção, e nisso divagamos, nos perdemos em sua musicalidade e em sua evocação de conceitos e ideias, emoções, sua intertextualidade subjacente nos conduz a uma viagem interpretativa, o autor não apenas imprime um sentido ao texto como sugere que nós venhamos atribuir sentido ao que lemos, e todo esse processo nos conduz à uma revelação ambígua, inexplicável.
Epifania, título do livro, está associado à manifestação de algo, divino, sublime, diáfano, emblemático, é uma palavra que está repleta de sentidos em nossa língua, sendo constantemente associada ao sagrado, ao religioso. Em alguns contextos, ela quer sugerir a descoberta do inefável, do magnânimo, de algo que tem a capacidade de nos metamorfosear por completo, de confundir nossa realidade e de nos dar um sentido inédito, abrir nossos olhos para um mundo outro, uma realidade outra, um eu outro. A proposta do título lhe parece ambiciosa? Os poemas que encontrará dentro dele não lhe farão pensar dessa forma. Todo o livro é metodicamente uma indução ao leitor ser profundamente transfigurado, os poemas são todos escritos no estilo mais límpido e simples, mas o que nos parece simples e inteligível, se nos revela em segundos, ao iniciarmos a leitura, em algo complicado, ininteligível em primeira instância, exige de nós uma leitura engajada, uma leitura concentrada e devotada. A lírica com a qual Roberto N. Bitencourt constrói seus versos é uma lírica desmedidamente direta, beira ao coloquial, introduzindo, por sua vez, os elementos comuns à poesia clássica, a musicalidade de alguns versos nos cativa de imediato, a ortoépia do que lemos reverbera em nossas mentes, ecoa em nosso âmago, levando-nos a nos deliciar com o simples aspecto formal dos poemas. As figuras de linguagem constroem-se em um estilo quase matemático, as construções linguísticas são muito simétricas, muito claras, a nitidez do que ele tece em cada poema é perceptível até ao mais desatencioso dos leitores, as anáforas, algo primorosamente introduzido em alguns poemas, nos embala em um ritmo hipnótico, que nos faz mergulhar no mote e nele nos perder, encontrando, mais uma vez, aquela súbita descoberta de algo fabuloso.
Epifania é uma obra cíclica, entraremos em mais detalhes sobre isso adiante, mas agora cumpre-nos dizer que a sua temática se descortina em uma apresentação de ideias e conceitos em uma sucessiva politomia que, logo mais adiante, leva-nos a uma convergência inevitável, embora esse ponto culminante per se seja dicotômico. Aparentemente, temos diante de nós versos paradoxais, ambíguos como um vício de linguagem, mas isso se dá diante de uma leitura superficial e preguiçosa, o que não é recomendável em se tratando desse livreto, que já dissemos só é diminuto em extensão material. Os poemas se amontoam discorrendo, cantando, em alguns momentos eles são uma reinvenção do poema em sua origem sintagmática com a música, sobre os mais assombrosos temas, nos conduzindo a uma experiência de recriação de nosso imaginário, do que seria a fruição da vida, a solidez da morte, a unicidade do eu. Subverte-nos em suas elocuções densas e dosadas com substancial lirismo, deixando a impressão de suavidade nos conduzir em todo o percurso de introspecção, para, em determinado momento, termos o nosso encontro com o sagrado e o profano em uma manifestação, em uma revelação com o inaudito. Nota-se em sua escrita subversiva, que não se inclina diante do classicismo da poesia romântica, simbolista e parnasiana, tampouco se entrega despudoradamente ao modernismo e ao pós-modernismo em sua descompostura e histrionismo velado, mas que percorre os caminhos de uma estilísticas muito própria e forjada pelo toque conciliador entre o que deve ser cantado ao versejar e como se deve cantar, que linguagem propriamente esse canto deve evocar, que elementos deve preservar e que elementos deve distorcer diante das volições do texto em sua envergadura autotélica. Trata-se, até certo nível de leitura, de uma obra engajada, mas que ao passo que se nos manifesta pedagógica e catequética, também se nos revela autotélica, pode ser lida sem qualquer pretensão doutrinária, didática ou panfletária.
São raras as ocasiões que nos defrontamos com obras cíclicas e por esse motivo não entendemos o que isso quer dizer. Se nos perguntarmos o que uma obra dessa natureza significa, talvez nos surpreendamos com nossa ignorância sobre essa peculiaridade. A primeira obra cíclica com a qual me defrontei de forma muito evidente foi O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, e suas impressões sobre mim perdurarão até meu último suspiro, disso não me resta dúvidas. Epifania se configura uma obra dessa natureza pela forma como torna presente os antigos e mais contundentes temas desde a fundação do mundo, desde o limiar da civilização, a partir do momento que se começou a escrever ficção, que se começou a pensar sobre a vastidão do cosmos e sobre a impenetrável profundidade do eu. Tudo isso é conjurado nos poemas nos quais se amalgama os motes místicos e sacrossantos, também os profanos e materialistas, sempre revestidos de um lume metafísico e atemporal, de forma e consistência invulgar e soberana, com uma construção linguística polissêmica e sintagmática em cada metáfora, em cada imagem que é sugerida, em cada arranjo lexical com o intuito de criar efeitos musicais e estéticos, o que nos introduz em uma experiência multissensorial e expansiva, na qual construímos sentidos e os desconstruímos em uma sequência ininterrupta, cujo produto só poderia ser um insight devastador, nesses momento compreendemos a suposta mensagem do livro e de cada poema que nele se encontra, no entanto, talvez isso não nos importe mais, uma vez que descobrimos também uma mensagem que o livro torna evidente em nós mesmos, em nosso próprio conteúdo, em nossa semântica, que está em movimento dialético com a leitura a cada verso que o autor nos apresenta, faz vicejar diante de nossos olhos exauridos.
O livro é arquitetado com tal brilhantismo que sua própria forma é um insight desde o título, perpassando pelos poemas em unidades e ao mesmo tempo em conjunto, até detalhes menos evidentes, que requer do leitor um esforço adicional para compreender seus sentidos internos e externos, quando o associamos à tradição literária e também mística. Epifania tem quarenta poemas, o que nos lembra toda uma tradição mística em torno desse número, aqui teríamos a numerologia do livro, revelando sua índole semântica imaterial e simbólica. São quarenta dias que Jesus passa no deserto antes de sua provação decisiva com Satanás, antes de iniciar sua missão evangelizadora que o revelou como o messias, o ungido de Deus. Também são quarenta anos que Moisés tinha quando Jeová se revelou a ele na sarça ardente no deserto, e mais quarenta anos que ele guiou a nação de Israel pelo deserto para a Terra Prometida, e nesse intervalo foi-lhe revelada as Leis do Eterno. Também aos quarenta anos Maomé teve sua revelação de Alá, em seu encontro com o arcanjo Gabriel, também no deserto. Em quarenta poemas somos conduzidos à nossa própria revelação, porque nos encontramos no deserto de poemas que são vozes ecoando dos mais recônditos cantos, que ecoam em nossa mente, estamos no ermo de nós mesmos, descobrimos que esse ermo está dentro de nós em cada poema, de quando o poeta fala em Epifania de temas abstratos como a descoberta de si até quando ele fala de temas sólidos e imperativos em nossa comunhão com a nossa espécie, ao tratar da opressão e da violência em suas inúmeras facetas. E como na tradição judaica, cada dia corresponde a um ano, cada poema em Epifania corresponde a uma jornada, porque cada dia, que corresponde a um ano, também corresponde para Deus a mil anos, e nesse milênio que a lírica dos poemas faz subitamente emergir em cada imagem que seus versos constroem, nós inevitavelmente nos defrontamos com nossa revelação, com o nosso encontro com o insólito, sagrado e profano. Todos esses sentidos são evocados com a epanadiplose extremamente emblemática com a qual ele inicia e termina o livro em um jogo ao mesmo tempo estilístico e imagético.
Ler Epifania é uma experiência vasta, imprecisa, como nos lembra o adágio português evocado por Fernando Pessoa. Não é um momento apenas de contemplação da arte poética, essa leitura não se resume a isso com seu conteúdo polifônico, embora essas inúmeras vozes pareçam emergir de nós mesmos. A cada poema, na densidade e sutileza de cada verso, na devastação do prosaico que sua lírica nos provoca, somos conduzidos à nossa própria iluminação, algo se revela em nós de forma inaudita, insólita e marcante. Contudo, ele tem ainda a capacidade de se tornar inédito a cada releitura, sempre nos revelando um conteúdo insuspeitado na leitura anterior, afugenta os sentidos dantes captados, se torna volátil, esgueirando seu lirismo e significações pelos meandros de nosso ser, o que faz da leitura de Epifania uma jornada de autodescoberta e desvendamento de mundos outros.

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