Quando
falamos sobre poesia tudo se torna mais difícil, complicado, intricado e
avassalador. Nada no universo em que habitam os versos, a prosa lírica, a poética,
é simples e fácil de se entender e de se explicar. Sabemos que a poesia
enquanto gênero poético, uma vez que estamos a usar aqui a terminologia em
sentido do gênero poético, seja ele em verso ou em prosa, dados os poemas em
prosa que também aqui se encaixam com
suma perfeição, tem uma longa tradição e está intimamente vinculada a outras
manifestações artísticas, como a música e a dança, embora possamos associá-la
em linhas gerais a todas às demais manifestações artísticas, teremos o lirismo
dos traços de um desenhista, a musicalidade das formas de uma construção
arquitetônica, a sofisticada rima dos passos de uma dança e assim
sucessivamente, tornado os elementos da poesia comuns às artes em suas
múltiplas facetas. Nesse conjunto panorâmico e repleto de sentidos e nuances
estéticas, a poesia se torna uma arte das mais complexas, tanto para produção
quanto para sua leitura e fruição. O prazer do texto na Antiguidade era a
poesia, que estava muito associada a música, e os versos dos mais antigos
poemas épicos foram em sua gênese cantados, acompanhados de instrumentos musicais,
hoje o poema está imerso em uma condição separatista, isso quando fazemos um
exame da poesia em sua manifestação mais evidente, nos livros de poemas, nas
antologias. Mas, desde o modernismo de 30, a poesia tem se revelado para nós,
brasileiros, um tanto vaga, em alguns momentos contundente, enigmática,
simplória, grotesca, vulgar e inquietante. Tivemos alguns experimentalismos na
produção poética que tentou revigorar o gênero em terras nacionais, contudo,
ainda parece que estamos muito distantes da poesia, ela agora só se nos revela
na música, no cinema e em outras obras que trazem alguns versos perdidos lá
dentro, como uma alusão nostálgica a um passado jubiloso.
Nesse mar de antologias, algumas
recentes, tivemos experimentado uma poesia brasileira multifacetada, que
remonta aos clássicos, que cria novas texturas linguísticas, que amplia os simbolismos
da prosa e do verso, da sintaxe poética, que tenta nos fazer sair de nossa
letargia para com a poesia. Ainda permanecemos imersos nesse distanciamento,
fisgados nos romances, na literatura facilmente captável, elucidativa,
prosaica, em uma estrutura que não nos exija a mobilização de nosso pensamento
e de nossas emoções ao mesmo tempo, mas sim de forma gradativa, aqui mais um
recurso caro à poesia, e que nos torne leitores rasos, incapazes até mesmo de
reconhecer obras poéticas em prosa, algo impensável nos leitores de outrora,
mais dados à arte poética. O ficcionista e ensaísta Roberto N. Bittencourt nos
convida em seu livro Epifania a
repensar toda a trajetória da poesia, das antologias, dos livros em versos, da
prosa poética e do verso prosaico, em sentido de simplicidade e comunicação
direta com o leitor e suas idiossincrasias. Mergulhar nesse livreto, trata-se
de uma obra extremamente curta, é uma experiência soberba, fascinante e
poliédrica, algo que não imaginamos ser possível em tão poucas páginas, uma das
ilusões de seu verso simples e contiguamente complexo e intricado.
Quanto ao tamanho da obra, não se
iluda pelas aparências. Não é um livreto para ser lido em um fôlego, como um
dos poemas que ele traz, que pode ser lido sem que tenhamos de recorrer ao ar
para tornar a encher nossos pulmões. Epifania
conta com apenas quarenta poemas, que se alternam em tamanho e profundida
temática e semântica, indissociavelmente. O menor dos poemas do livro, Abismos, equivale a uma odisseia
homérica, tanto no que o autor propõe em seu mote, quanto em sua estrutura e
sua construção linguística. Esse poemeto tem uma densidade em sua única estrofe
de cinco versos que nos assusta, ao lermos nos perdemos em tudo que ele sugere
com suas assonâncias, com seu léxico meticulosamente arquitetado para nos fazer
planar em seus sentidos expostos e latentes. É um poemeto que se nos apresenta
como uma boneca russa, e a cada camada de significações que vamos desvendando,
sempre surge outra, nos confundindo, nos impressionando e nos convidando a
perscrutá-lo cada vez mais. Desde seu título até seu conteúdo, sua morfologia,
somos levados a mergulhar em uma profunda introspecção, e nisso divagamos, nos perdemos
em sua musicalidade e em sua evocação de conceitos e ideias, emoções, sua intertextualidade
subjacente nos conduz a uma viagem interpretativa, o autor não apenas imprime
um sentido ao texto como sugere que nós venhamos atribuir sentido ao que lemos,
e todo esse processo nos conduz à uma revelação ambígua, inexplicável.
Epifania,
título do livro, está associado à manifestação de algo, divino, sublime,
diáfano, emblemático, é uma palavra que está repleta de sentidos em nossa
língua, sendo constantemente associada ao sagrado, ao religioso. Em alguns contextos,
ela quer sugerir a descoberta do inefável, do magnânimo, de algo que tem a
capacidade de nos metamorfosear por completo, de confundir nossa realidade e de
nos dar um sentido inédito, abrir nossos olhos para um mundo outro, uma
realidade outra, um eu outro. A proposta do título lhe parece ambiciosa? Os
poemas que encontrará dentro dele não lhe farão pensar dessa forma. Todo o
livro é metodicamente uma indução ao leitor ser profundamente transfigurado, os
poemas são todos escritos no estilo mais límpido e simples, mas o que nos
parece simples e inteligível, se nos revela em segundos, ao iniciarmos a
leitura, em algo complicado, ininteligível em primeira instância, exige de nós
uma leitura engajada, uma leitura concentrada e devotada. A lírica com a qual
Roberto N. Bitencourt constrói seus versos é uma lírica desmedidamente direta,
beira ao coloquial, introduzindo, por sua vez, os elementos comuns à poesia
clássica, a musicalidade de alguns versos nos cativa de imediato, a ortoépia do
que lemos reverbera em nossas mentes, ecoa em nosso âmago, levando-nos a nos
deliciar com o simples aspecto formal dos poemas. As figuras de linguagem
constroem-se em um estilo quase matemático, as construções linguísticas são
muito simétricas, muito claras, a nitidez do que ele tece em cada poema é
perceptível até ao mais desatencioso dos leitores, as anáforas, algo
primorosamente introduzido em alguns poemas, nos embala em um ritmo hipnótico,
que nos faz mergulhar no mote e nele nos perder, encontrando, mais uma vez,
aquela súbita descoberta de algo fabuloso.
Epifania
é uma obra cíclica, entraremos em mais detalhes sobre isso adiante, mas agora
cumpre-nos dizer que a sua temática se descortina em uma apresentação de ideias
e conceitos em uma sucessiva politomia que, logo mais adiante, leva-nos a uma
convergência inevitável, embora esse ponto culminante per se seja dicotômico. Aparentemente, temos diante de nós versos
paradoxais, ambíguos como um vício de linguagem, mas isso se dá diante de uma
leitura superficial e preguiçosa, o que não é recomendável em se tratando desse
livreto, que já dissemos só é diminuto em extensão material. Os poemas se
amontoam discorrendo, cantando, em alguns momentos eles são uma reinvenção do
poema em sua origem sintagmática com a música, sobre os mais assombrosos temas,
nos conduzindo a uma experiência de recriação de nosso imaginário, do que seria
a fruição da vida, a solidez da morte, a unicidade do eu. Subverte-nos em suas
elocuções densas e dosadas com substancial lirismo, deixando a impressão de
suavidade nos conduzir em todo o percurso de introspecção, para, em determinado
momento, termos o nosso encontro com o sagrado e o profano em uma manifestação,
em uma revelação com o inaudito. Nota-se em sua escrita subversiva, que não se
inclina diante do classicismo da poesia romântica, simbolista e parnasiana,
tampouco se entrega despudoradamente ao modernismo e ao pós-modernismo em sua
descompostura e histrionismo velado, mas que percorre os caminhos de uma
estilísticas muito própria e forjada pelo toque conciliador entre o que deve
ser cantado ao versejar e como se deve cantar, que linguagem propriamente esse
canto deve evocar, que elementos deve preservar e que elementos deve distorcer
diante das volições do texto em sua envergadura autotélica. Trata-se, até certo
nível de leitura, de uma obra engajada, mas que ao passo que se nos manifesta
pedagógica e catequética, também se nos revela autotélica, pode ser lida sem
qualquer pretensão doutrinária, didática ou panfletária.
São raras as ocasiões que nos
defrontamos com obras cíclicas e por esse motivo não entendemos o que isso quer
dizer. Se nos perguntarmos o que uma obra dessa natureza significa, talvez nos
surpreendamos com nossa ignorância sobre essa peculiaridade. A primeira obra
cíclica com a qual me defrontei de forma muito evidente foi O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, e
suas impressões sobre mim perdurarão até meu último suspiro, disso não me resta
dúvidas. Epifania se configura uma
obra dessa natureza pela forma como torna presente os antigos e mais
contundentes temas desde a fundação do mundo, desde o limiar da civilização, a
partir do momento que se começou a escrever ficção, que se começou a pensar
sobre a vastidão do cosmos e sobre a impenetrável profundidade do eu. Tudo isso
é conjurado nos poemas nos quais se amalgama os motes místicos e sacrossantos,
também os profanos e materialistas, sempre revestidos de um lume metafísico e
atemporal, de forma e consistência invulgar e soberana, com uma construção
linguística polissêmica e sintagmática em cada metáfora, em cada imagem que é
sugerida, em cada arranjo lexical com o intuito de criar efeitos musicais e
estéticos, o que nos introduz em uma experiência multissensorial e expansiva,
na qual construímos sentidos e os desconstruímos em uma sequência ininterrupta,
cujo produto só poderia ser um insight devastador, nesses momento compreendemos
a suposta mensagem do livro e de cada poema que nele se encontra, no entanto,
talvez isso não nos importe mais, uma vez que descobrimos também uma mensagem
que o livro torna evidente em nós mesmos, em nosso próprio conteúdo, em nossa
semântica, que está em movimento dialético com a leitura a cada verso que o
autor nos apresenta, faz vicejar diante de nossos olhos exauridos.
O livro é arquitetado com tal brilhantismo
que sua própria forma é um insight desde o título, perpassando pelos poemas em
unidades e ao mesmo tempo em conjunto, até detalhes menos evidentes, que requer
do leitor um esforço adicional para compreender seus sentidos internos e
externos, quando o associamos à tradição literária e também mística. Epifania
tem quarenta poemas, o que nos lembra toda uma tradição mística em torno desse
número, aqui teríamos a numerologia do livro, revelando sua índole semântica
imaterial e simbólica. São quarenta dias que Jesus passa no deserto antes de
sua provação decisiva com Satanás, antes de iniciar sua missão evangelizadora
que o revelou como o messias, o ungido de Deus. Também são quarenta anos que
Moisés tinha quando Jeová se revelou a ele na sarça ardente no deserto, e mais quarenta
anos que ele guiou a nação de Israel pelo deserto para a Terra Prometida, e
nesse intervalo foi-lhe revelada as Leis do Eterno. Também aos quarenta anos
Maomé teve sua revelação de Alá, em seu encontro com o arcanjo Gabriel, também no
deserto. Em quarenta poemas somos conduzidos à nossa própria revelação, porque
nos encontramos no deserto de poemas que são vozes ecoando dos mais recônditos
cantos, que ecoam em nossa mente, estamos no ermo de nós mesmos, descobrimos
que esse ermo está dentro de nós em cada poema, de quando o poeta fala em Epifania de temas abstratos como a
descoberta de si até quando ele fala de temas sólidos e imperativos em nossa
comunhão com a nossa espécie, ao tratar da opressão e da violência em suas
inúmeras facetas. E como na tradição judaica, cada dia corresponde a um ano,
cada poema em Epifania corresponde a
uma jornada, porque cada dia, que corresponde a um ano, também corresponde para
Deus a mil anos, e nesse milênio que a lírica dos poemas faz subitamente emergir
em cada imagem que seus versos constroem, nós inevitavelmente nos defrontamos
com nossa revelação, com o nosso encontro com o insólito, sagrado e profano. Todos
esses sentidos são evocados com a epanadiplose extremamente emblemática com a
qual ele inicia e termina o livro em um jogo ao mesmo tempo estilístico e
imagético.
Ler Epifania é uma experiência vasta, imprecisa, como nos lembra o
adágio português evocado por Fernando Pessoa. Não é um momento apenas de contemplação
da arte poética, essa leitura não se resume a isso com seu conteúdo polifônico,
embora essas inúmeras vozes pareçam emergir de nós mesmos. A cada poema, na
densidade e sutileza de cada verso, na devastação do prosaico que sua lírica
nos provoca, somos conduzidos à nossa própria iluminação, algo se revela em nós
de forma inaudita, insólita e marcante. Contudo, ele tem ainda a capacidade de
se tornar inédito a cada releitura, sempre nos revelando um conteúdo
insuspeitado na leitura anterior, afugenta os sentidos dantes captados, se
torna volátil, esgueirando seu lirismo e significações pelos meandros de nosso
ser, o que faz da leitura de Epifania
uma jornada de autodescoberta e desvendamento de mundos outros.

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