Alguns
livros nos consomem em sua leitura desde o início até à última palavra, isso
por motivos diversos. Os mais comuns são a densidade de sua narrativa, as
emoções conflitantes que o texto desperta em nós, a complexidade de sua
temática, a estranheza da prosa ou da lírica que o autor emprega para compor a
sua obra, a fluidez assombrosa e multifacetada que assusta e perturba
simultaneamente o leitor, a estrutura medonha e cativante, contiguamente, em que
o conteúdo da obra está estruturado. Em determinados momentos, logo
identificamos porque deixamos de ler um livro, porque resguardamos de sua
leitura, adiamos a jornada de decifrar aquela obra para outra ocasião, mais
propícia talvez, nunca se sabe quais fatores culminarão em uma perspectiva
distinta da que tivemos em nosso primeiro contato com determinado livro, é
possível que em outros contextos, circunstâncias emocionais, temporais,
venhamos ter uma impressão distinta e talvez sejamos conduzidos por uma leitura
jubilosa. Contudo, nem sempre algo que nos consome, que nos inquieta ou
perturba, deixamos de lado, às vezes superamos esses sentimentos instáveis e
levamos nosso intento adiante, despertando em nosso íntimo as mais antagônicas
experiências sensoriais. Ler Folha de
Relva da primeira até à última página não é uma tarefa fácil, ela requer
concentração e dedicação à leitura, empenho e anseio por terminar a obra, sem
perder-se, sem perder o fio condutor daquela densa e expressiva poética, que é
posta de forma tão simples e enigmaticamente complexa e intricada.
O
livro de Walt Whitman revolucionou a história da escrita em verso, da poesia
moderna e do fazer poético, isso é claro e já se foram escritos muitos textos discorrendo
sobre o fato. Suas inovações estéticas e estilísticas, sua forma fluida e leve
de tratar de temas complexos, de temas vastos e panorâmicos, como se tivesse
tendo uma conversa trivial com o leitor, é um tanto inquietante a princípio,
deixando-nos a perguntar-nos se estamos lendo mesmo tudo aquilo, dito daquela
maneira, algo que se assemelha tanto ao coloquial, ao senso comum e sem o
requinte da poética e sua musicalidade, o que na verdade é um engano, já que
esses recursos poéticos, essa musicalidade, não é suprimida definitivamente na
obra do norte-americano, mas apenas se torna menos evidente, sobretudo para nós
quando a lemos em uma tradução, esquecendo da ortoépia em língua inglesa e como
aquelas palavras soam no vernáculo em que foram concebidas. Ainda assim, nos
defrontamos com essa construção belíssima da densa temática exposta nos poemas
de seu livro, quando o poeta tenta falar sorrateiramente e frivolamente sobre
coisas estranhas e perturbadoras, sobre coisas grandiosas e além de nosso senso
de quietude, os versos de Whitman nos sacolejam, nos faz tremular, nos eletriza
e incita, nos faz entrar em efervescência, enquanto em outros momentos são como
um doce veneno que nos causa profunda modorra.
Embora
apresentem motes distintos, os poemas de Folhas
de Relva são construídos em uma cadência sequencial e estão de tal forma integrados
em sua voz expressiva que parecem se amalgamar sem deixar quaisquer traços de
segregação entre eles. São como cantos, se constituem uma unidade rítmica,
melódica e conteudista, mas estão inegavelmente vinculados a outros cantos,
como em uma ópera, uma ária que dá continuidade à ária seguinte, e sua
dramaticidade, sua suavidade e sua abordagem cênica, isolada, se congrega
inevitavelmente ao plano seguinte, ao conjunto seguinte. No plano visual,
podemos comparar esses poemas às pequenas peças coloridas que formam um
mosaico, peças que são de nuances policromáticas diversas, que possuem tamanhos
diversos, que dentro do conjunto ocupam uma posição determinada, cumprindo uma
função ao construir a unicidade, mas que quando ali congregadas, quando
observadas ao constituir o mosaico, nós esquecemos sua condição fragmentária.
Os poemas que constituem o livro de Whitman se arranjam dessa forma, como
átomos na teoria de Demócrito, fragmentos indivisíveis em formas múltiplas que
se arranjam para compor o mundo visível, palpável. Os versos de Folhas de Relva são unidades poéticas
atômicas, com sua própria tessitura, matéria e potencialidade, mas, eles podem
ser agrupados, formando algo ainda maior e mais profundo e intricado, uma
unidade que é tão vasta que não pode ser contida por meio de conceitos e ideias
simples e planas.
A
espontaneidade absoluta com a qual Whitman verseja nos corrompe em sua própria
poética, que é dotada de um senso estético invulgar embora simples e suave, sem
muito gongorismo linguístico e expressivo, a única densidade que experimentamos
em seus versos consiste em sua explanação poética e seu vastíssimo e quase infinito conteúdo, sua abordagem do
mundo, de si mesmo, da natureza e do humano se confunde a todo tempo, de tal
maneira que nos alude ao panteísmo de Giordano Bruno, mas que, se observamos
detidamente, não se concilia àquele, mas dele se distancia pelo traço da
modernidade. O panteísmo proposto por Walt é muito mais cíclico e paradoxal,
atravessado pela ciência e pela arte em seu percurso histórico, sofrendo
influências diversas dos conhecimentos acumulados até ali, quando cada um dos
poemas foi pensado, concebido. Temos, então, a inserção de novos elementos cognitivos
e socioemocionais, que não seria possível em outra temporalidade. Nesse
sentido, pensamos Folhas de Relva
como uma antologia que só seria passível de leitura dentro de seu tempo, sem
nos embrenharmos por anacronismos que prejudicaria nossas leituras de seus
imensos, não só em tamanho, mas sobretudo em profundidade, poemas, que se
deslocam dentro de nossa percepção e senso sociocultural e histórico preciso,
nos fazendo percorrer estranhas e incomuns divagações, propor-nos confabulações
íntimas viscerais e extravagantes, levando-nos a impensáveis ilações, que de
outro modo jamais nos atingiria com o mesmo vigor que a obra poética de Whitman
nos incita.
O
sentido da leitura de um livro tão expansivo e controverso, que nos confunde e
nos faz experimentar inúmeros deslocamentos ao longo da leitura só pode ser
concebido por cada leitor individualmente, após sua breve e intensa experiência
de decodificação dessa obra que de forma alguma assume uma dimensão unívoca. A
obra de Whitman é muito peculiar em seus traços fundamentais e muito genérica e
extensa em sua forma de comunicação, não deixando margem apenas para um olhar,
cada olhar sempre será uma interpretação, aqui a poesia não é tida em sua
capacidade de compreensão em hipótese alguma, compreender os sentidos do autor
em seus poemas pode ser uma tarefa impossível, dada sua construção e sua
capacidade de divagar com conceitos e imagens dentro de cada poema. Esse jogo
intenso de criação de sentidos e significados metamórficos leva cada um de nós
a experimentar uma interatividade não imaginada ao ler os poemas e tentar
extrair qualquer coisa deles, nos surpreendendo com tudo que imaginamos ali
desvendar e discernir, podemos estar inteiramente equivocados ou o equívoco
pode ser apenas mais uma chave para a compreensão dessa emblemática e polimorfa
poética.

Olá, Samuel! Arranjei um tempinho e vim aqui. Nestes dias está tudo tão corrido, por isso iniciei a leitura deste texto e não fui até o final. Porém, estou colocando o teu blog em meus favoritos e voltarei para cumprir minha promessa, lendo atentamente. Eu, por hora adianto que achei harmonioso, convidativo e pra quem aprecia bons textos, um excelente lugar para ancorar. Abraços! Parabéns! Da Fran.
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