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A plebeica antologia Moyes


A construção da prosa e do estilo de um autor leva muito tempo, é o que temos registrado em seus relatos íntimos, diários, cartas, memoriais, ensaios autobiográficos e até mesmo biografias, quando biógrafos dedicados se debruçam com afinco sobre a vida e obra de um desses gênios da literatura, outros nem tanto, mas que também nos dão uma perspectiva instigante da produção literária e da edificação do próprio personagem que o autor inevitavelmente irá se tornar mais cedo ou mais tarde. Aliás, se tornar um personagem parece ser o destino de todo autor, sobretudo quando ele escreve primordialmente ficção, que cativa tanto seu público leitor gerações afora, que chega a criar uma aura mítica, ficcional, em torno de sua figura real. Assim, alguns autores logo descobrem que são incapazes de redigir em verso, que estão condenados à prosa, se isso é bom ou ruim depende de sua ambição e aceitação de suas limitações, se é que podemos falar de restrições em se tratando do gênio artístico, parece esse reducionismo, assim o designaremos, como uma inclinação personalista, fruto das vivências e leituras desse autor de si mesmo, dos demais e do mundo, leituras de livros que constituem seu cânone pessoal sobretudo. Jojo Moyes, inicialmente jornalista, aqui no Brasil certamente teria uma forte e sólida inspiração para a crônica, construiu sua obra em cima do romance, o que parece ela ter uma segurança consolidada em sua experiência com o relato do cotidiano, com a tessitura do mundo real e panorâmico, que mesmo contido em algumas linhas se apresenta e manifesta de forma dilatada nas páginas de uma obra ficcional mais extensa como é o caso do gênero.
Digo que Jojo Moyes parece ter uma segurança no romance devido o volume expressivo de obras desse gênero que produziu. Imagino ela diante de seu computador, em uma manhã invernal, com uma xícara de café ao lado, fazendo anotações de uma nova história, criando assim um argumento que a motiva a escrever algo inédito e fascinante para os seus leitores. Ela vislumbra o enredo, a trama, enquanto olha para um mural com listas, epígrafes, recortes de notícias sobre livros, fotos e imagens relacionadas à literatura e sua carreira de escritora/jornalista e, em seguida, diz para si mesma que tem diante de si a missão de escrever mais um romance. Bem, talvez esse seja alguns capítulos a mais que o primeiro que escrevera, talvez seja uns capítulos a menos que o último que publicara. Não importa, é um romance, ela sabe exatamente por qual caminho percorrer, lembrando de toda uma tradição inglesa, e europeia, de romances, com obras memoráveis que vão desde Charles Dickens até Flaubert. Sim, definitivamente ela não teme escrever essa obra e na manhã seguinte, após o café com a família, ela senta e começa a redigir as primeiras linhas da narrativa dividida em capítulos e talvez partes ou tomos. Arriscar-se em um gênero distinto, como o verso, escrever poema, escrever outro gênero em prosa, como a novela e o conto, pode, em algum momento, parecer uma má ideia. Um autor pode, obviamente, ser hábil em mais de um gênero, ele pode dedicar-se exaustivamente a uma obra em determinado gênero e depois seguir para outra, como fez James Joyce, provavelmente lido por Moyes, ou pode escrever por toda a sua vida em todos os gêneros e não perder o estilo vigoroso, hábil, majestoso, como fez Machado de Assis, provavelmente não lido por Moyes.
A antologia de contos de Jojo Moyes, Paris para um e outros contos, em português, Paris for one and others stories, em inglês, traz algumas peças que nos dão uma dimensão vaga e simultaneamente precisa dessa autora britânica em narrativas curtas, embora alguns contos sejam mais extensos, quase invadindo a seara de outro gênero, a novela, como é o caso do Paris para um e Lua de mel em Paris, que sozinhos ocupam mais da metade do volume com dez peças. Considero a obra vaga porque trata-se de um trabalho introdutório, ao que se parece, uma primeira incursão no gênero, ao menos que tenha sido publicada pela autora. É provável que ela já tenha escrito muitas peças desse gênero e não as tenha publicado, talvez tenha escrito inúmeras narrativas curtas e nãos as tenha publicado, bem como pode ter publicado em outros formatos e plataformas. Ainda assim, os contos desse livro sempre se apresentam para nós, leitores atentos e curiosos, como algo incipiente, ligeiramente inseguro, trabalhado com incerteza, um esboço desde sua prosa até sua forma e conteúdo, incluindo sua dimensão latente de tentativa de narrar com complexidade e densa acentuação explanatória.
Paris para um é uma comédia romântica fresca, em traços simplórios em sua trama e personagens, nada nela é consistente e substancial, além de ser glicosada, embora conserve um toque poético. O enredo e os personagens sofrem de ausência de profundidade formal e estética, são excessivamente paradigmáticos, levando o leitor, desde as primeiras páginas, a deduzir todo o desenrolar da história, presumindo acertadamente cada suposta reviravolta e antegozando e até se contrariando com clímax e o desfecho. Após concluir a leitura a impressão que temos é de que já tínhamos lido a obra e estávamos apenas fazendo uma revisão mental de sua narração até o último momento, ela é nitidamente autoexpressa, está em nosso imaginário, em nossa percepção simplória de enredos e tramas românticas e cômicas que se amalgamam, fixadas em nossos desvarios e devaneios como um sonho de uma noite de verão ou inverno que ansiamos por vivenciar algum dia, mas que tanto faz se o lermos por aí.
Entre os tuítes é uma peça policial das mais originais e consistentes que se vincula à sólida tradição britânica da narrativa policial e Bella é um esboço sofisticado de uma detetive sagaz e metódica, mas com peculiaridades marcantes e deliciosamente trabalhadas na construção do personagem, que não se distancia de Hercule Poirot ou o próprio Sherlock Holmes, nos fazendo lembrar que os ingleses possuem um traquejo fascinante para o gênero. A decepção aqui é que a trama é curtíssima, deixa-nos apenas esfaimados por uma extensão desse conto excepcional vigorosamente construído em todos os seus aspectos, desde os formais até o conteudístico. Os contos sobre a vida conjugal são ensaios de reconciliação com a moral judaico-cristã de forma sutil e tenaz, construindo uma narrativa que se poderia chamar de fábula antrópica, já que conserva o desfecho pedagógico e doutrinador, moralizante, mas sem a adesão ao enquadramento formal com personagens zoomórficos. Isso acontece tanto em Tarde de amor quanto em Um pássaro na mão. E, pode-se dizer, ressurge em Treze dias com John C, embora nesse conto também esteja presente uma crítica suave ao papel do marido na jornada conjugal, essa suavidade, por sua vez, não isenta uma mordaz advertência ao homem de sua responsabilidade por voltar-se para a vida nupcial e enxergar a esposa como sua outra parte e não como um acessório de entretenimento como os demais que ele faz uso.
Sapatos de couro de crocodilo pode, em uma primeira leitura, parecer uma apologia à moda comparável à película O Diabo veste Prada. Aqui seria algo do gênero A baranga calça Louboutin, e obviamente isso a transformaria em uma top model capaz de enfeitiçar homens e mulheres, agora estamos no cenário de um conto de fadas moderno onde a magia de um sapatinho de cristal e feitiços de entidades místicas são substituídos pelo poder da grife e o insuperável fascínio do mercado, do comércio globalizado e da publicidade e propaganda. Outra leitura sugerida é a de artefatos e seu clássico poder de nos fazer perceber nosso potencial latente. Assim como a criança precisa do andador para descobrir que pode sair por aí e os super-heróis usam ferramentas que potencializam suas habilidades incipientes, nós precisamos, em algum momento, de um sapato, um relógio, uns óculos, que nos faça notar como somos capazes de nos mostrar ousados, resolutos e sensuais. O surrealismo caricatural está presente em duas peças que trazem alguns elementos em comum ao passo que no mote se divergem brutalmente, Assalto e A lista de Natal nos introduz em duas tramas em que há o ambiente inacreditável dos sonhos em tom burlesco, sem atingir o apogeu das distorções das leis que regem o mundo palpável. O mote do primeiro é um amor descoberto ao acaso, a tolice da paixão à primeira vista e o arquétipo do vilão complexo, que congrega alguns dos predicados do herói. O segundo remete ao fracasso matrimonial e o inegável valor da amizade e sua capacidade de nos curar dos mais abomináveis venenos, incluindo a megera da sogra estereotipada como demônio familiar.
Já em O casaco do ano passado temos uma peça simplória sobre a descoberta da união e do amor familiar, com algumas inserções rudimentares sobre a vida de aparência do século XXI e a influência dos padrões de consumo sustentados às custas de sacrifícios materiais e emocionais. Seria uma narrativa brilhante se a profundidade psicológica e a construção formal dos personagens não tivesse sido tão plana e engessada, tornando-os meros estereótipos, caricaturas toscas em um enredo linear e trivial, absolutamente enfadonho em sua tentativa de nos convencer que a trama tem algum ineditismo criativo. Lua de mel em Paris, por sua vez, trata-se de uma peça, no mínimo, curiosa em que os fatos se desenrolam em ritmo oscilante entre o frenético e o lento e meditativo, com um arcabouço instigante. O conto traz dois casais em lua de mel em Paris separados pelo tempo, em séculos diferentes, embora comunguem mais do que a condição de recém-casados. As duas esposas são igualmente imaturas e impaciente, incapazes de fazer uma leitura autônoma de sua nova situação e também de seus cônjuges. Os esposos possuem talentos incomuns, são artistas da forma e do traço e sua vida profissional torna-os difíceis de aceitação, embora elementos antagônicos em seus respectivos campos de atuação tornem a causa de dissabores na vida matrimonial. Apesar de alguns anacronismos, fator comum em tramas ficcionais contemporâneas sobre contextos de outras temporalidades, o conto nos conduz ao jogo instigante de mulheres ciumentas e inseguras e maridos distraídos e alheios movidos por uma paixão avassaladora que é mais feminil que os personagens femininos da própria história.
Jojo Moyes construiu com seus romances, em vendagem, aceitação do público, diálogo com a crítica, dinamismo de sua obra e extensão de sua produção, uma reputação bastante sólida, consistente, que pode até mesmo ser questionada, contradita, censurada e discutida em outros ensaios. Assim, ela se evidencia em sua prolífica produção como romancista com obras nobres, produzida com requinte, estilo e sofisticação de uma densa autora, de uma talentosa e hábil novelista da alta tradição inglesa, ao lado de tantos nomes que se amontoam em extensa lista. Contudo, ao analisarmos sua incursão na narrativa curta, Paris para um e outros contos, nos deparamos com uma decadência em termos literários e artísticos. Sua antologia é um desfile de plebeísmos estéticos, formais, estilísticos, conteudísticos e narrativos que tudo que pensamos após a leitura é em iniciar uma jornada pelo já tradicional matrimônio de personagens de classes sociais antagônicas, colocando de um lado a realeza de seus romances com, do outro lado para um enlace nupcial, a plebe de seus contos. Em sua carreira como escritora, no entanto, há espaço para o aprimoramento, para a maturidade em outros gêneros, inclusive o da narrativa curta. Ela que foi jornalista por tanto tempo e que se consolidou como uma escritora prolífica de romances bem-sucedidos tem diante de si o desafio de transformar sua narrativa curta em um arcaísmo de envergadura prodigiosa como Dublinenses, de James Joyce.

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