A
ficção científica não é um gênero muito aceito entre os críticos de arte e isso
não se restringe apenas à literatura, nos deparamos com o preconceito em
relação ao gênero em outras manifestações artísticas, mesmo tendo exemplares
excepcionais nesse campo, obras de fato prodigiosas que superam em termos
estéticos outras que são comumente apreciadas e aceitas, sobretudo quando
estamos falando de uma crítica tradicionalista. A ideia que geralmente se
concebe é que fantasia e ficção científica não exigem empenho do autor, seja
uma obra literária ou não, em criar aquele objeto de contato com o público com
a mesma qualidade de trabalhos mais formais e enquadrados dentro de uma
tradição longuíssima de degustação, é preciso lembrar que romances como
Frankenstein, o primeiro no gênero, ainda hoje são estigmatizados e encarados
apenas como obra popular, sem uma profundidade estilística, sem um trato denso
e industrioso que permite inserirmos tal trabalho entre obras de vulto da
literatura de todos os tempos. Mesmo que livros assim apareçam em listas de
obras importantes para a história da literatura sempre serão considerados
devido sua popularização, aceitação entre os leitores e quase nunca pela
apreciação da crítica dita especializada, que sempre tende a considerar tais
obras como subliteratura.
Alguns
livros definitivamente contribuem de forma decisiva para o modo pelo qual
certos gêneros são encarados, isso é indissociável da forma como um público
avalia alguns trabalhos e como a crítica os insere dentro de um contexto maior
de produção e apreciação, detalhamento de sua constituição, composição e
influência dentro de um conceito estético e linguístico. Claro que, seguindo
por esses meandros, teríamos de considerar que as obras de ficção científica
primeiras deveriam ter levado a crítica a ser mais atenta ao gênero, uma vez
que encontramos em sua gênese trabalhos brilhantes, escritos com um talento
espantoso de seus autores e com uma prosa não só deliciosa e popularesca, mas
também consistente, com um requinte linguístico inegável, entre os quais o
próprio livro de Mary Shelley e quase tudo que se produziu por Verne e Wells.
Contudo, algumas obras que ganharão destaque no gênero são de fato deploráveis
e põe em xeque o valor literário de todo o gênero, principalmente quando a
produção tende a se proliferar sempre nessa mesma linha de qualidade medíocre,
o que realmente aconteceu com a ficção científica e hoje podemos perceber de
forma extremamente acentuada. Um exemplo disso é a antologia de contos da
Superinteressante intitulada Realidade
Alternativa, que tem a curadoria de Karin Hueck, que emergiu de uma seção
na própria revista e posteriormente foi editada em volume pela Editora Abril e
vendida em lojas de jornais e revistas em todo o país.
A
aposta de Hueck é ambiciosa e intrépida, sua seleção de contos, decepcionante
diante do que foi esboçada na introdução de Alexandre Versignasse, não há como
conciliar o que é dito pelo diretor de redação da Superinteressante com os
contos selecionados pela jornalista, o resultado é apocalíptico. A edição
sugere desde sua capa que tratam-se de contos de ficção científica, uma vez que
realidade alternativa é um dos temas mais recorrentes do gênero, tendo obras de
fato primorosas que abordam-no tanto na literatura quanto no cinema, aqui é
indispensável dizer que alguns dos contos se coadunam com a proposta e notamos
que a curadoria de Hueck não foi de todo negligente, tendo a capacidade
perceptiva e a sensibilidade estética de incluir em sua seleta obras de fato
extraordinárias, que representam de forma magistral o que há de melhor no gênero, tanto com um
texto cuja prosa é cativante quanto o enredo se desdobra de forma hábil e
talentosa, com uso de uma terminologia que não decepciona nem desrespeita a
inteligência do leitor, mas sim que instiga e envolve, desde a concepção dos personagens, atravessando sua
dinâmica dentro do mote que se esboça na narrativa até mesmo à seleção dos
recursos linguístico para narrar esses pequenos contos epifânicos que se pode
garimpar da antologia.
Afinal
de contas, qual o problema com a antologia em sua constituição majoritária? A
ideia de contos de ficção científica que apresentem realidades alternativas é
soberba, um trabalho que renderia obras primorosas e de fato absurdas, e temos
isso em uma escala infelizmente diminuta. A proposta do título e do mote para a
escolha dos contos é muito além do que nos oferecido em seu material
selecionado, uma coisa que pode ter se passado na mente do apresentador da
antologia, já que ele apresenta uma versão pessoal dos melhores trabalhos ali
publicados e destaca a possibilidade irrefutável de cada leitor construir sua
própria lista de predileção. Contudo, mesmo havendo uma lista de predileção em
uma antologia, os demais trabalhos deveriam ser excepcionais o suficiente para
serem apreciados, aplaudidos e degustados por qualquer leitor, não é o que
acontece. Os contos em sua maioria são muito incipientes na construção do
universo que almeja retratar, se apresentando como obras tímidas, toscas e
concebidas dentro de uma inventividade muito adstrita pelos autores, culminando
em narrativas muito engessadas e simplórias, sem qualquer fulgor formal, com
enredos deploráveis e muito insípidos, que não conseguem sequer sugerir a ideia
de realidade alternativa consistente, que destoe e se vincule ao que a revista Superinteressante propõe,
talvez aqui a culpa tenha sido da curadoria, cuja seleção se ateve a trabalhos
que não fossem ousados o suficiente em suas propostas, bem como pode ter sido
fato o material de escolha que não apresentasse obras de tal vulto.
Quanto
a seleção eis que temos essa problemática com o material selecionado, o que
está diretamente ligado à qualidade dos textos selecionados, tanto os que são
um fracasso enquanto obras literárias quanto os que são excepcionais em estilo
e estética. A maior parte dos contos são exemplos de trabalhos que foram
escritos por iniciantes na arte literária, não em experiência artística, mas
sim em trabalhar com os gêneros, ficção científica e conto. A forma e o
conteúdo dos contos não se constituem algo sólido e formidável ao tentar
trabalhar os temas, se tornando narrativas muito simplórias, com uma linguagem
empobrecida, tanto ao tentar seguir as convenções da escrita quanto ao se
propor um rompimento estético dessas convenções para criar um efeito metalinguístico
e propor um efeito artístico na composição, o que não acontece. As composições
apresentam falhas imperdoáveis que são oriundas do próprio argumento sobre o
qual o autor resolveu investir para redigi-las, algumas de forma assombrosa,
nos levando a narrativas que são uma afronta ao gênero da ficção científica,
enquanto outras possuem um argumento de todo atraente, mas que foram executados
com uma imperícia literária vertiginosa, levando-nos a questionar o que esses
autores pensavam que estavam fazendo ao se propor dar tais trabalhos como
concluídos. Erros grosseiros de roteiro, quebra de continuidade temática, falta
de progressão semântica, uma inadequação discursiva presente de forma tenaz, é
isso que encontramos na maioria absoluta dos contos, até mesmo em um deles cuja
autoria não é um nome tão desconhecido assim na literatura nacional, o que nos
deixa verdadeiramente decepcionados com o que trabalho que se tentou congregar
nessa antologia.
O
que se pode esperar de Realidade
Alternativa é que ela afaste ou distancie os leitores brasileiros da ficção
científica nacional, o que é lamentável, uma vez que há outros autores
fabulosos nesse gênero que merecem ser lidos e relidos por produzirem obras
formidáveis. A antologia, por sua vez, faz com que nos deparemos com o que há
de pior no gênero produzido por brasileiros, excetuando-se alguns poucos
trabalhos dessa seleta feita pela Hueck, que não sabe se deixou influenciar
pela ausência de um material melhor ou pela inaptidão mesmo para a curadoria de
uma obra dessa envergadura, isso é passível de discussão e sempre será. Cabe ao
leitor, diante disso, tentar extrair dali alguns poucos trabalhos que sejam
tragáveis e o que entre eles são de fato encantadores, e que podem ser tanto
degustados quanto aplaudidos, o que nos induz a uma certa aceitação do trabalho
de Hueck, já que ela não se revelou, dessa forma, tão parva a ponto de nos
oferecer uma antologia plenamente deplorável, mas chegou muito perto disso. O
que temos diante de tal trabalho é a possiblidade de fazer uma leitura
alternativa, embrenharmos pela condição que se nos apresenta nos dias atuais,
zapear entre um conteúdo e outro, tentando encontrar algo palatável, isso
certamente encontraremos e não nos fará perder de todo o tempo em tentar
encarar essa obra publicada pela Superinteressante, que também nunca fez um
trabalho primoroso em sua seara própria.

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