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A educação é uma construção coletiva



Somos seres societários, que não conseguem viver sozinhos e que se recusam permanecer isolados por muito tempo. Em nossas vidas, em quase todos os momentos, estamos convivendo com o outro. Essa vivência com o outro também nos traz dissabores, nos torna pessoas muitas vezes amargas, ríspidas e hostis. É o desafio de compartilhar nossas diferenças com os demais e também aceitar suas distinções, aquilo que nos une é menos frequente que aquilo que nos distancia, parte disso porque nos atemos apenas às divergências.
A educação é um processo social que não pode em momento algum partir para a solidão, para o isolamento. Embora a construção do saber seja uma tarefa solitária, em nosso íntimo e a partir do nosso recorte de tudo aquilo que entramos em contato, o processo de ensino e aprendizagem é social, é compartilhado, e é ele quem orienta todo o processo educativo. Nos demais espaços e segmentos da escola, apesar de não se tornar tão evidente, também prevalece esse elo entre os sujeitos para que a escola eduque.
Educar em momento algum pode ser entendido apenas como socialização, que é mais uma tarefa da família que da escola, mas sim uma junção entre os dois processos, socializar e instruir. Socializar para que o aluno também saiba quais os ensinamentos da escola sobre a vida familiar e em sociedade, e, como não poderia deixar de ser, instruir, garantir que os estudantes tenham acesso ao conhecimento historicamente construído pela humanidade.
Apesar de todos os profissionais da educação parecerem estar muito distantes uns dos outros, é preciso que estejam sempre unidos. Desde o agente de portaria até á merendeira, perpassando pelo professor e diretor, em um engajamento que transforme a escola em um espaço educativo, que instrua e socialize. E educar, nesse sentido lato, requer uma vivência, uma experiência, com outros sujeitos educados, que já sofreram a ação desse mesmo processo, com outros sujeitos também já educados. Não podemos comungar com os demais aquilo que não temos conosco, e, como seres societários, somos resultados de nossas vivências coletivas.
Os professores ocupam um espaço central em tudo isso. Eles, ao mesmo tempo que instruem, educam, não apenas com o que têm a dizer, mas também com sua própria postura profissional, que traz a marca dos grandes mestres do passado, em todos os campos, seja religioso, político ou cultural. O professor é o responsável por demonstrar que socialmente podemos nos educar mutuamente, e educação não é um processo terminável, estamos sempre e continuamente nos educando e educando outros. O professor, por sua vez, é tido como o especialista nisso, é sua missão existencial enquanto profissional, o que lhe acarreta um peso e uma distinção das mais louváveis.
Assumir a postura de um professor é estar cônscio que cabe a si educar, instruir e socializar, e para isso é preciso assumir um papel de difícil condução das experiências coletivas. Saber coexistir, diante de tantas contradições, com sujeitos tão distintos, com sua carga emocional e ideológica tão adversa. É difícil educar e socializar alunos tão díspares, e também conviver com outras pessoas e tonar sua postura sempre aberta ao diálogo, base da vivência coletiva. Contudo, encontrar-se na profissão docente é isto: na construção do saber em sua dimensão social, compartilhar suas potencialidades e limitações, buscando manter a chama do dialogismo sempre ardendo, conduzindo e permitindo-se ser conduzido no universo da educação, que promove, em última instância, a comunhão dos sujeitos dentro daquilo que chamamos de civilização.
É preciso que todos nós estejamos sempre abertos ao diálogo e que sejamos capazes de conviver e compartilhar tudo que nos torna o que somos, viver coletivamente é isto: não oferecemos aos demais apenas nossas qualidades, mas também nossas imperfeições que fazem de nós quem somos. Aprender e ensinar é uma lei que devemos manter inviolável, para que sejamos capazes de aprender a encarar o outro não pelo seu maior defeito, mas sim por sua mais elogiável qualidade. Ensinar que somos imperfeitos e que precisamos aprender a se superar, e, também, que temos bons exemplos a serem seguidos. Isso faz de nos mestres que aprendem e aprendizes que ensinam, isso faz de nós seres societários, que constroem um mundo onde todos ocupam um lugar ambíguo, em uma confluência que se edifica no entrelaçamento de individualidades que formam uma teia social.

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