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A educação é uma construção coletiva

Somos seres societários, que não conseguem viver sozinhos e que se recusam permanecer isolados por muito tempo. Em nossas vidas, em quase todos os momentos, estamos convivendo com o outro. Essa vivência com o outro também nos traz dissabores, nos torna pessoas muitas vezes amargas, ríspidas e hostis. É o desafio de compartilhar nossas diferenças com os demais e também aceitar suas distinções, aquilo que nos une é menos frequente que aquilo que nos distancia, parte disso porque nos atemos apenas às divergências. A educação é um processo social que não pode em momento algum partir para a solidão, para o isolamento. Embora a construção do saber seja uma tarefa solitária, em nosso íntimo e a partir do nosso recorte de tudo aquilo que entramos em contato, o processo de ensino e aprendizagem é social, é compartilhado, e é ele quem orienta todo o processo educativo. Nos demais espaços e segmentos da escola, apesar de não se tornar tão evidente, também prevalece esse elo entre os sujei...
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Letras Felinas [conto]

No anticlímax do inverno de 2017, o curador do espólio de Roberto Prado Delgaço escreveu para um jornalista do Correio do Vale do São Francisco para endereçar-lhe um envelope encontrado nos arquivos pessoais de Delgaço sobre uma figura que o colunista Álvaro Rebouças, do mesmo jornal, pesquisava com afinco durante toda a sua jovem carreira de jornalista. Rebouças era um jovem idealista, ainda não tinha encontrado sua natureza própria entre os obsoletos profissionais da notícia, embora tivesse inclinações genuínas e sonhos previsíveis, como todo redator tem em sua gênese. Dália Herval foi uma escritora e jornalista que viveu entre Brasília e São Paulo a maior parte de sua vida. Seu talento para as letras manifestou desde cedo, ela sempre sonhou ser uma jornalista do Semanário Nacional , um dos principais jornais do país em sua época, extinto anos antes do processo de abertura política e jamais retomado com a redemocratização. Muitas pessoas sonhavam descobrir mais sobre a brilh...

Leitura alternativa

A ficção científica não é um gênero muito aceito entre os críticos de arte e isso não se restringe apenas à literatura, nos deparamos com o preconceito em relação ao gênero em outras manifestações artísticas, mesmo tendo exemplares excepcionais nesse campo, obras de fato prodigiosas que superam em termos estéticos outras que são comumente apreciadas e aceitas, sobretudo quando estamos falando de uma crítica tradicionalista. A ideia que geralmente se concebe é que fantasia e ficção científica não exigem empenho do autor, seja uma obra literária ou não, em criar aquele objeto de contato com o público com a mesma qualidade de trabalhos mais formais e enquadrados dentro de uma tradição longuíssima de degustação, é preciso lembrar que romances como Frankenstein, o primeiro no gênero, ainda hoje são estigmatizados e encarados apenas como obra popular, sem uma profundidade estilística, sem um trato denso e industrioso que permite inserirmos tal trabalho entre obras de vulto da literatura ...

A plebeica antologia Moyes

A construção da prosa e do estilo de um autor leva muito tempo, é o que temos registrado em seus relatos íntimos, diários, cartas, memoriais, ensaios autobiográficos e até mesmo biografias, quando biógrafos dedicados se debruçam com afinco sobre a vida e obra de um desses gênios da literatura, outros nem tanto, mas que também nos dão uma perspectiva instigante da produção literária e da edificação do próprio personagem que o autor inevitavelmente irá se tornar mais cedo ou mais tarde. Aliás, se tornar um personagem parece ser o destino de todo autor, sobretudo quando ele escreve primordialmente ficção, que cativa tanto seu público leitor gerações afora, que chega a criar uma aura mítica, ficcional, em torno de sua figura real. Assim, alguns autores logo descobrem que são incapazes de redigir em verso, que estão condenados à prosa, se isso é bom ou ruim depende de sua ambição e aceitação de suas limitações, se é que podemos falar de restrições em se tratando do gênio artístico, pare...

Notas à leitura de Folhas de Relva, de Whitman

Alguns livros nos consomem em sua leitura desde o início até à última palavra, isso por motivos diversos. Os mais comuns são a densidade de sua narrativa, as emoções conflitantes que o texto desperta em nós, a complexidade de sua temática, a estranheza da prosa ou da lírica que o autor emprega para compor a sua obra, a fluidez assombrosa e multifacetada que assusta e perturba simultaneamente o leitor, a estrutura medonha e cativante, contiguamente, em que o conteúdo da obra está estruturado. Em determinados momentos, logo identificamos porque deixamos de ler um livro, porque resguardamos de sua leitura, adiamos a jornada de decifrar aquela obra para outra ocasião, mais propícia talvez, nunca se sabe quais fatores culminarão em uma perspectiva distinta da que tivemos em nosso primeiro contato com determinado livro, é possível que em outros contextos, circunstâncias emocionais, temporais, venhamos ter uma impressão distinta e talvez sejamos conduzidos por uma leitura jubilosa. Contud...

Epifania, de Roberto N. Bittencourt: a literatura como iluminação

Quando falamos sobre poesia tudo se torna mais difícil, complicado, intricado e avassalador. Nada no universo em que habitam os versos, a prosa lírica, a poética, é simples e fácil de se entender e de se explicar. Sabemos que a poesia enquanto gênero poético, uma vez que estamos a usar aqui a terminologia em sentido do gênero poético, seja ele em verso ou em prosa, dados os poemas em prosa   que também aqui se encaixam com suma perfeição, tem uma longa tradição e está intimamente vinculada a outras manifestações artísticas, como a música e a dança, embora possamos associá-la em linhas gerais a todas às demais manifestações artísticas, teremos o lirismo dos traços de um desenhista, a musicalidade das formas de uma construção arquitetônica, a sofisticada rima dos passos de uma dança e assim sucessivamente, tornado os elementos da poesia comuns às artes em suas múltiplas facetas. Nesse conjunto panorâmico e repleto de sentidos e nuances estéticas, a poesia se torna uma arte d...

A literatura lacrimejante de Conceição Evaristo

O que a literatura deve nos proporcionar? Essa talvez seja uma pergunta cíclica para leitores, críticos literários e escritores. Talvez nunca venhamos nos cansar de fazer perguntas dessa natureza e é muito provável também que as respostas sejam enleadas de ambiguidade, de uma multiplicidade semântica indefinível, que emerjam inúmeras e distintas respostas que nos inquietem, que nos coloquem em situação conflitante e limítrofe. Quem se fizer essa pergunta agora pode encontrar para ela uma resposta que amanhã se torne despida de significado para si mesmo. O que me impele aos livros? O que de fato eu procuro neles? Por que dedico horas e horas de meu dia, de minha semana, de meu mês e do meu ano aos livros? O que tenciono encontra neles, que enredo, argumento, narrativa, narração, estilo, autor, gênero tem me atraído? Indagar é um passo fundamental para a descoberta, um passo necessário, e a mesma inclinação ao questionamento é fundante, seminal, para o conhecimento verdadeiro. Quando...